António Moita
António Moita 10 de setembro de 2017 às 18:50

Da Operação Pirâmide a Pedrógão

Cerca de 40 anos passados sobre a Operação Pirâmide em que mais de 150 mil contos foram angariados - uma fortuna ao tempo -, temos agora a polémica instalada sobre o paradeiro do muito dinheiro angariado em ações de solidariedade para com as vítimas dos incêndios deste verão.
Mais uma vez os portugueses evidenciaram uma enorme vontade de ajudar e de estar ao lado de quem mais precisa. Mas esta generosidade tem sido inversamente proporcional à transparência dos processos de aplicação dos fundos angariados.

 

Bem sei que somos um povo do Sul da Europa em que estas coisas da caridade não são levadas muito a sério. É tempo de perceber que brincar com dinheiro revela, no mínimo, mau gosto. Mas se o dinheiro pertencer a outros, então podemos estar na presença de um crime.

 

Descontando as querelas partidárias em torno do tema, estamos perante um problema muito sério. As instituições que foram destinatárias desta onda solidária, sejam públicas ou privadas, deveriam ser entidades confiáveis quanto mais não fosse pela obrigatoriedade de prestação de contas.

 

Foram seguramente milhares as iniciativas individuais e coletivas de resposta às necessidades imediatas das populações afetadas. Foram também angariados alguns milhões de euros destinados a cobrir prejuízos imediatos e a recuperar rapidamente habitações destruídas. Que pela primeira vez em democracia seja possível saber onde está a ser aplicado o nosso dinheiro para que todos possam ter orgulho no gesto praticado. Porque essa confiança é essencial para que a atitude seja permanente e se repita no nosso dia a dia sempre que necessário.

 

Assistir ao espetáculo lamentável de um Presidente da República à procura do dinheiro desaparecido e de um primeiro-ministro a endossar responsabilidades a terceiros não identificados é algo que dispensaríamos com gosto. Em nome da moral e da decência.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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