Daniel Taborda
Daniel Taborda 12 de fevereiro de 2017 às 21:15

Dar informação não chega

De entre as várias funções da contabilidade conta-se a prestação de contas a um vasto conjunto de interessados. Os chamados "stakeholders", que incluem o público em geral.

De uma técnica assente em partidas dobradas, em que no final do dia (e do exercício económico) o valor dos créditos tem de ser igual ao dos débitos, os organismos internacionais de contabilidade encarregaram-se de a sofisticar, criando um vasto conjunto de normas, alicerçadas numa estrutura concetual que, segundo muitos, contribui para o reforço do seu caráter científico.

 

Ressalvando repetidamente que a "ciência contabilística" se baseia mais num conjunto de princípios do que em regras, endossando uma ampla margem de discricionariedade e de subjetivismo aos preparadores da informação financeira, exigindo-lhes com isso mais responsabilidade nas interpretações e juízos de valor, as normas internacionais criadas no seio daqueles organismos impuseram-se pelo mundo. Garantindo a comparabilidade e facilitando o processo de internacionalização das empresas, a legislação nacional foi acolhendo estas normas. Sob o desiderato da harmonização, o processo de tradução procurou não desvirtuar o original. Mas, com isso, introduziu expressões estranhas ao léxico comum, conferindo-lhes significados desconhecidos e tornando uma linguagem já por si hermética, impenetrável para um leigo.

 

Os gestores são os responsáveis pelas informações que constam das demonstrações financeiras. As suas estimativas e projeções traduzem-se na determinação das amortizações, depreciações, imparidades, provisões, entre outras rubricas, com impacto direto nos resultados do período. Os contabilistas codificam a informação e, cumprindo a legislação contabilística, elaboram aquelas demonstrações financeiras. Os auditores verificam-nas e dão uma opinião sobre se refletem uma imagem verdadeira e apropriada da entidade. E os "stakeholders", que presuntivamente dispõem de um nível de conhecimentos financeiros adequado, analisam-nas para tomarem decisões racionais. Será que esta presunção sobre os destinatários finais da informação não estará a ser irrealisticamente exigente?

 

Dar informação não chega. É fundamental que os recetores a compreendam. E, para isso, os emissores têm de se fazer compreender.

 

Professor convidado na FDUC e ROC

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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