Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 16 de maio de 2017 às 20:43

Das coisas não propriamente novas

Olhando para o horizonte temporal que as gerações vivas conseguem alcançar, nunca como hoje terá havido tanta gente a admirar e a ter esperança num Papa.

Os crentes gostam de Francisco por causa do que Francisco lhes diz sobre a sua fé, os não crentes gostam de Francisco por causa do que Francisco lhes diz sobre as prioridades do mundo. Viu-se isso na forma como uns e outros o receberam em Portugal. Todas as pessoas parecem ter razões para acreditar que o Papa fala para elas e sobre elas, e para fazer do Papa o seu Papa.

 

Não discordo em geral da maioria das análises que têm sido feitas acerca do pontificado de Francisco - quer do seu papel enquanto chefe de Estado e líder de uma diplomacia, que tem intervindo com renovado interesse nos afazeres do mundo, quer enquanto Sumo Pontífice de uma religião milenar que tem descentralizado a Igreja, impulsionado o diálogo com os não crentes e pregado o perdão pelo exemplo do gesto público.

 

O que me parece é que talvez seja exagerado o grau de novidade que muitas pessoas apontam ao pontificado.

 

Em primeiro lugar, é bom ressalvar que esse grau de novidade estaria sempre necessariamente empolado: a comparação imediata é com Bento XVI, que protagonizou um momento de especial ensimesmamento da Igreja, por muito doutrinariamente luminoso que tenha sido.

 

O pontificado de Bento XVI foi o primeiro a iniciar-se no século XXI, após o fim do mundo da Guerra Fria. Um mundo que a Igreja ajudou a derrubar, mas que foi substituído por uma outra realidade que era preciso começar a perceber. Bento XVI foi, em boa parte, um ponto de situação na Igreja, de reconsideração e reforço dos fundamentos da sua doutrina. No entanto, os cardeais que escolheram Ratzinger são os mesmos que escolheram Bergoglio - e isso é quanto baste para refrear as teses revolucionárias sobre o actual Papa.

 

Além disso, convém ir sempre lembrando que a Igreja Católica não sobreviveu mais de dois mil anos por ter andado a perseguir o mundo na sua constante mudança. A Igreja sobreviveu, isso sim, porque o seu posto desejado é o de um farol moral permanente, no meio e para lá das mudanças circunstanciais do mundo.

 

A Igreja não muda a sua mensagem consoante as intimações do mundo. As intimações do mundo é que vão sempre dando pretextos diferentes para a Igreja espalhar a sua mensagem. A mensagem, no essencial, é sempre a mesma.

Daí que seja necessário particular cuidado com algumas tentativas de apropriação política da figura de Francisco, que dizem que com ele o Vaticano se passou a concentrar como nunca nos oprimidos, nos desvalidos, nos perdedores do progresso.

 

Quando o Papa disse, por exemplo, que "esta economia mata", não disse nada que a Igreja não tenha dito já. Aliás, a Igreja tem uma tradição doutrinária de crítica ao que, no seu entendimento, são os excessos do capitalismo, pelo menos desde a "Rerum Novarum", encíclica de 1891 de Leão XIII.

 

E não esqueçamos o papel que na segunda metade do século XX o pontificado de João Paulo II teve na queda do comunismo e da União Soviética, talvez o maior contributo "secular" da Igreja Católica para a libertação dos seres humanos de que há memória.

 

O problema é que na altura o mundo estava dividido em dois e muitos dos que agora se valem do Vaticano eram então seus inimigos. Hoje o mundo é mais complexo, as barricadas políticas e ideológicas formam uma geometria bem mais variável, e já é possível que todos os lados se sintam representados pelo Papa. Esta, sim, é uma grande novidade.

 

Advogado

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Joaõ Costa Há 1 semana

Admirar sim, é um Papa de estatura cheia e de mudança, muito diferente do caruncho habitual da Igreja,... mas ter esperança num homem tão idoso e cansado?