Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 03 de outubro de 2017 às 20:19

De 28 de Dezembro de 2015 a 1 de Outubro de 2017

Para percebermos o significado do resultado de Assunção Cristas em Lisboa, e a sua importância para o futuro, temos de regressar a 28 de Dezembro de 2015, quando Paulo Portas anunciou e justificou a sua decisão de abandonar a liderança do CDS.

É um exercício que se recomenda aos muitos psicanalistas políticos que acham relevante saber se Assunção "matou" ou não o "pai".

 

Quem então escutou bem a explicação de Portas sabe que não se tratou de um relatório sobre o passado, ou sobre as dificuldades do presente, mas de um conjunto de ideias precisas sobre o futuro. Eis os meus apontamentos.

 

Primeira ideia: a investidura do governo minoritário do PS, segunda força mais votada, mudou tudo, porque daí em diante deixou de interessar que partido obtém mais votos, mas apenas que coligação dispõe da maioria dos deputados eleitos.

 

Segunda: goste-se ou não desta inversão do costume constitucional, ela poderá ter sido o início da extinção da prática do voto útil ou táctico, e da inércia do voto por clubismo ou hábito. Nenhum partido poderá jamais invocar com seriedade o argumento de que merece um voto só porque tem mais possibilidades de chegar à frente, ou pensar que tem a propriedade inviolável de um particular pecúlio eleitoral.

 

Terceira: sem essa menorização estrutural, o CDS teria campo aberto para a sua afirmação, colocando-se no mesmo ponto de partida que qualquer outra força. Isto representaria uma oportunidade histórica para o CDS tentar crescer e cumprir a sua vocação de partido de escopo amplo e transversal nas áreas tradicionais da direita democrática.

 

Quarta: para o conseguir, seria preciso que o CDS, em vez de se perder em nichos e demandas identitárias estéreis, se concentrasse em ser um partido de soluções concretas, aberto, competente, de espírito independente e confiável para aquele vasto eleitorado.

 

Quinta: era indispensável passar o testemunho à "nova geração". Por três razões. Em primeiro lugar, porque no meio de tanta desconfiança da política as pessoas tenderiam a recompensar um partido aberto à renovação. Em segundo lugar, porque era preciso libertar o CDS do quadro mental tóxico determinado por uma mistura de ambiente político do resgate e trauma da vitória roubada. Em terceiro lugar, porque a nova geração é aquela que no CDS tem mais cultura de governo, nacional e local. Uma cultura de realismo e compromisso. Num cenário em que só poderá formar governo quem conseguir crescer eleitoralmente sem inviabilizar as pontes necessárias, esse não é um dado negligenciável (veja-se, aliás, como entre as campanhas do CDS e do PSD em Lisboa não houve a mínima acrimónia).

 

A candidatura de Assunção Cristas na capital seguiu este roteiro e cumpriu escrupulosamente todos os seus propósitos. Foi uma candidatura exemplar, com pragmatismo e sensatez, concentrada nos temas que os lisboetas consideram prioritários, aberta a independentes e a novos quadros, numa base de meritocracia, e que levou a um resultado que não pode ser desvalorizado.

 

Em Lisboa, na eleição autárquica com maior visibilidade, com a sua líder (o rosto com que se apresentará às legislativas), o CDS deixou de ser submisso ou sucedâneo: afirmou-se como a principal oposição ao PS, retirou-lhe a maioria, quadruplicou a sua representação na Câmara e duplicou a votação do PSD.

 

Significa isto que o "voto útil" acabou e que o CDS terá um crescimento inevitável e substantivo? Não sei. Mas uma coisa é certa: se até aqui "o fim do voto útil" era uma abstracção, agora passou a ter uma ilustração.

 

Advogado

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