Stephen  Roach
Stephen Roach 08 de agosto de 2017 às 14:00

Decifrar a resiliência económica da China

Os analistas têm dificuldade em resistir à tentação de projectar na China os resultados verificados nas crises de grandes economias desenvolvidas. Essa foi a abordagem errada no passado; e está errada hoje também.

Mais uma vez, a economia chinesa desafiou os receios dos profetas do negativismo. Depois de ter desacelerado durante seis anos consecutivos, o crescimento do PIB real parece estar a recuperar em 2017. O crescimento homólogo de 6,9% no segundo trimestre supera o crescimento de 6,7% em 2016 e está bem acima do consenso dos analistas internacionais que, há uns meses, antecipavam que a subida do PIB se aproximasse de 6,5% este ano e abrandasse ainda mais em 2018, para 6%.  

 

Há muito que argumento que a obsessão com o PIB negligencia questões mais profundas do debate sobre o crescimento da China, na medida em que a economia chinesa está no meio de uma transformação estrutural extraordinária - com um modelo conduzido pela produção industrial a dar lugar a um cada vez mais poderoso modelo de consumo liderado pelos serviços.

 

Na medida em que isso implica uma mudança na composição do PIB – que substitui um crescimento relativamente rápido no investimento e exportações por um crescimento relativamente lento do consumo privado interno - uma desaceleração do crescimento global do PIB é inevitável e desejável. As percepções sobre a vulnerabilidade da China precisam de ser consideradas neste contexto.

 

Este debate já tem uma longa história. Os primeiros sinais que tive remontam ao final da década de 1990, durante a crise financeira asiática. Da Tailândia e da Indonésia até à Coreia do Sul e Taiwan, esperava-se que a China fosse a próxima. Um artigo de capa da The Economist, em 1998, vividamente ilustrado com um junco chinês a ser sugado por um poderoso redemoinho, dizia tudo.   

 

No entanto, nada poderia estar mais longe da verdade. Quando a poeira assentou no virulento contágio pan-regional, a economia chinesa continuava como se nada fosse. O crescimento real do PIB desacelerou temporariamente para 7,7% em 1998-1999, antes de acelerar para 10,3% na década seguinte.

 

A resiliência da China durante a Grande Crise Financeira foi igualmente reveladora. No meio da pior contracção global desde a década de 1930, a economia chinesa ainda cresceu a uma taxa média anual de 9,4% em 2008-2009. Ainda que tenha sido uma quebra face ao insustentável ritmo de 12,4% nos três anos anteriores à crise, representou apenas uma pequena descida em relação à tendência de 10% registada nos 30 anos depois de 1980. Na verdade, se não fosse a resiliência da China nas profundezas da crise recente, o PIB mundial não teria contraído 0,1% em 2009, mas sim 1,3% - o declínio mais acentuado na actividade global da era pós-Segunda Guerra Mundial.

 

O mais recente ataque de pessimismo em relação à economia chinesa tem-se concentrado em duas frentes desfavoráveis (desalavancagem e ajuste do mercado imobiliário) – basicamente uma estagnação semelhante à japonesa. Mais uma vez, a lente ocidental está mal focada. Tal como o Japão, a China é uma economia com um grande nível de poupança que deve a sua dívida crescente em grande parte a si própria. Em qualquer caso, a China está mais bem preparada do que o Japão para evitar problemas de sustentabilidade.

 

De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a poupança nacional da China atingirá provavelmente 45% do PIB em 2017, muito acima da taxa de poupança de 28% do Japão. Tendo em conta que o Japão – com uma dívida pública bruta em 239% do PIB - conseguiu evitar uma crise da dívida soberana, a China, com a sua almofada de poupança muito maior e uma dívida mais pequena (49% do PIB), está em muito melhor forma uma implosão desse tipo.

 

É verdade que a China tem um problema com a dívida crescente das empresas – estima-se que no final de 2016 a dívida fora do sector financeiro tenha atingindo cerca de 157% (o que compara com 102% no final de 2008). Isto torna ainda mais urgente uma reforma das empresas estatais, onde se tem concentrado a maior parte do endividamento.

 

Além disso, há sempre boas razões para nos preocuparmos com o mercado imobiliário chinês. Afinal, uma classe média crescente precisa de habitação a preços acessíveis. Com a percentagem da população chinesa que vive em cidades a aumentar de menos de 20% em 1980 para mais de 56% em 2016 - e provavelmente para 70% até 2030 - esta é uma consideração importante.

 

Mas isso significa que os mercados imobiliários chineses - ao contrário dos de outras grandes economias totalmente urbanizadas - gozam de um amplo apoio do lado da procura, com a população urbana a crescer provavelmente 1 a 2% ao ano nos próximos 10 a 15 anos. Tendo os preços das casas chinesas subido praticamente 50% desde 2005 - quase cinco vezes a média global (de acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais e os dados do FMI) - a acessibilidade é obviamente uma preocupação legítima. O desafio para a China é gerir com prudência o crescimento da oferta de habitação necessária para satisfazer os requisitos da procura, sem promover especulações excessivas e perigosas bolhas de activos.

 

Ao mesmo tempo, a economia chinesa também está a garantir suporte a sólidas fontes de resiliência cíclica no início de 2017. O crescimento homólogo de 11,3% nas exportações registado em Junho contrasta fortemente com os anos anteriores, que foram negativamente afectados por uma recuperação global mais fraca no pós-crise. Da mesma forma, as subidas homólogas de 10% nas vendas a retalho ajustadas pela inflação até meados de 2017 - cerca de 45% mais rápido que o ritmo de crescimento de 6,9% do PIB - reflectem um aumento impressionante no rendimento familiar e o ímpeto cada vez mais poderoso (e possivelmente subestimado) do comércio electrónico.

 

Há muito que os pessimistas vêem a economia chinesa como vêem as suas próprias economias - repetindo um erro clássico para o qual a análise do historiador de Yale Jonathan Spence alertou há muitos anos. Muitos acreditam que as bolhas de activos que afectaram o Japão e os Estados Unidos vão repetir-se na China, e que o rápido crescimento económico baseado no endividamento terá as mesmas repercussões que episódios semelhantes tiveram noutros países.

 

Os analistas têm dificuldade em resistir à tentação de projectar na China os resultados verificados nas crises de grandes economias desenvolvidas. Essa foi a abordagem errada no passado; e está errada hoje também.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de "Unbalanced: The Codependency of America and China".

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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fcj Há 1 semana

Como também estão errados no resto... O capitalismo bem chama pelo diabo, mas o que chega são os naturais sinais da queda dessa ideologia abutre como a conhecemos!!! Para bem da Humanidade!!!