José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 01 de novembro de 2017 às 20:05

Derrotar o populismo com populismo 

Mas como o que é populista são as políticas, independentemente de quem as propõe ou implementa, pouco adianta combater o populismo com populismo.

A FRASE...

 

"O antigo primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, disse que se ganhar as eleições do próximo ano irá cortar os impostos e aumentar significativamente o défice orçamental ao invés de o reduzir, como exigem as regras da Comissão Europeia."

 

Reuters, 19 de outubro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O populismo é o sinal mais precoce da decadência das sociedades. Ele consiste na identificação de um bode expiatório exógeno, que simultaneamente oferece uma explicação simples para as causas e uma solução expedita para a cura da decadência. É claro que isso é um logro, porque a génese da decadência mora no âmago da sociedade, não fora. Mas é muito mais fácil defletir as culpas do que assumir as falhas próprias. Esse é o apelo do populismo, cuja perversidade não fica, porém, por aqui. Como não resolve nada, porque o diagnóstico é errado e a terapêutica, ineficaz, o populismo contribui para acentuar o mal-estar social, reforçando ainda mais o seu apelo. Por isso, uma vez instalado, torna-se muito difícil de desalojar. É por essa razão que os políticos ocidentais se estão a tornar crescentemente populistas: não por conversão ideológica, mas por parecer o único caminho possível.

 

Veja-se, a este propósito, o que se está a passar em Itália. Com eleições legislativas a poucos meses de distância e com o centro acossado à esquerda e à direita por partidos anti-europeístas, o tom de desafio e contestação das regras e autoridades europeias contagiou o discurso de todas as vozes, mesmo das mais moderadas, como a do ex-primeiro-ministro, Matteo Renzi. Mas como o que é populista são as políticas, independentemente de quem as propõe ou implementa, pouco adianta combater o populismo com populismo.

 

Por razões diversas e complexas, na Europa o bode expiatório predileto dos populistas é a "Europa", seja por causa da imigração, do BCE ou das regras de disciplina orçamental. Como o populismo atual tem na sua base formas mais ou menos explícitas de nacionalismo económico, ele torna-se incompatível com uma União Europeia construída sobre uma matriz essencialmente económica. Daí que, direta ou indiretamente, o populismo, pela tração que está a ganhar nos vários quadrantes políticos - mesmo os outrora mais ortodoxos - se esteja a constituir como enorme ameaça para o projeto europeu.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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