Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 14 de fevereiro de 2018 às 20:45

Desatar nós

Talvez seja possível que o próximo líder do maior partido da oposição e o atual primeiro-ministro possam falar sobre assuntos que não podem esperar mais, como esses do novo aeroporto ou até da ferrovia.

É curioso que António Costa tenha dado uma entrevista ao jornal ABC, esta semana, em que diz que o tema do comboio de alta velocidade é um tema tabu em Portugal. Exatamente na mesma semana em que no PSD inicia funções o presidente eleito, Rui Rio, que já anunciou a sua disponibilidade para acordos sobre várias matérias. Todos sabemos que Portugal precisa desses acordos como de pão para a boca, nomeadamente nas áreas da segurança social, na justiça, nas obras públicas, entre outras. O empresário Alexandre Soares dos Santos sugeriu mesmo, numa entrevista recente, um pacto a dez anos sobre as diferentes áreas da governação patrocinado pelo Presidente da República. Durante a recente campanha para a liderança do partido, tive ocasião de manifestar o meu cepticismo quanto a acordos no último ano antes de eleições legislativas, uma vez que, por razões compreensíveis, não será o ambiente mais propício à serenidade que esses processos requerem. É verdade que, como salientava o meu mandatário nacional, o presidente da Câmara de Viseu, Espanha e outros países europeus cada vez apostam mais nesse tipo de ferrovia, ficando Portugal cada vez mais isolado e fora desse contexto.

 

Como foi também noticiado esta semana o próprio plano rodoviário nacional, que comporta no essencial requalificação das vias existentes e construção de alguns troços novos, está com uma muito baixa execução. Recordo-me de que esse contraste entre as vias de comunicação em Portugal e as que existem em Espanha e outros países europeus podia ser apreciado já quando da construção de autoestradas, na passada década de 90. Nessa altura, quem olhasse, por exemplo, para o mapa da Península Ibérica deparar-se-ia com muitas vias a amarelo e encarnado, cores identificadoras de autoestrada, de norte a sul e de oeste a este de Espanha. Em Portugal, havia a ligação Lisboa - Porto e uma parte para o Sul, Setúbal e pouco mais, além de uma parte da A6, julgo que até Estremoz. Depois, foi extraordinário: teve de se fazer à pressa a ligação entre Estremoz e Elvas por causa da Expo 98. Era caricato, porque se vinha da autoestrada de Madrid até Badajoz, saía-se de uma autoestrada, entrava-se numa estrada aos solavancos que durava umas dezenas de quilómetros, até reencontrarmos "autopista".

 

Aqui está em causa naturalmente, a circulação de mercadorias, fundamental para a economia portuguesa, mas também naturalmente de pessoas. Não somos a economia espanhola, tivemos a intervenção externa que tivemos, tivemos muita dívida para pagar, pelo que as decisões são complexas, mas que urgem sem dúvida. Não podem ser tabu. Como é sabido, abaixo do TGV existem outras bitolas na linha férrea que permitem a compatibilização com Espanha. Só que, com tabu ou sem tabu as coisas não se resolvem. Voltei a ler esta semana artigos com dúvidas sobre a localização do aeroporto que complemente a Portela. O país não pode esperar e se matérias como a segurança social muito dificilmente são para o último ano da legislatura, talvez seja possível que o próximo líder do maior partido da oposição e o atual primeiro-ministro possam falar sobre assuntos que não podem esperar mais, como esses do novo aeroporto ou até da ferrovia. Como sempre, a questão é a de se colocar primeiro o interesse nacional e, como tenho dito, deve caber ao Governo a iniciativa. 

 

Advogado

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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