Sandra Clemente
Sandra Clemente 04 de janeiro de 2017 às 20:30

Desrespeito

O 4.º poder. É isto a imprensa, tal a sua influência. Os jornalistas têm consciência disso. E têm de ter noção de que o poder traz responsabilidade.

No fim do ano, o Público e a Sábado fizeram capas sobre, respetivamente, "O que espera para Portugal em 2017?" e "Em busca da Nova Estratégia Nacional". Só convidaram homens a opinar. Se não acha chocante, veja por este prisma: perguntaram à Ruth Bader Ginsburg, juíza do Supremo americano, quando terá este tribunal mulheres suficientes, e ela respondeu "quando tiver nove". Se ninguém estranha que seja composto só por homens, porque se chocaria se fosse composto só por mulheres? Estamos em 2017 e a geração que dirige os jornais renovou-se no último ano, em Portugal. Mas homens inteligentes, novos, continuam a achar normal não ouvir opiniões de mulheres, não sentem o machismo, confortável ainda que não intencional, nem o desrespeito pelas mulheres que estas capas significaram. Felizmente há exceções, mas isto hoje é inconcebível e a situação mais grave do que supus.

 

A edição de fevereiro da Glamour americana foi feita só por mulheres, ao constatar que só 37% dos fotógrafos e 32% dos cabeleireiros eram mulheres. Agora é de emprego que estamos a falar. Sério não é? Também para nós, sistematicamente preteridas e, por isso, com mais dificuldades económicas. Ao publicarem artigos sobre desigualdade pensem nesta, sobre pobreza pensem na disparidade salarial, sobre crescimento económico pesem os intervenientes que afastam, sobre a secundarização das mulheres que vos choca reflitam sobre as vezes que nos apagam e a perpetuam. Se acham o exemplo da Glamour menor, porque é uma revista feminina, também o são a Vogue, a Elle ou a Vanity Fair e os homens dão-lhes entrevistas, por todo o mundo, porque nós somos metade da população, um mercado importante. Consumimos, votamos, influenciamos. Podemos deixar de o fazer quando nos desconsideram - façam as contas. E, face às circunstâncias, começar a responder inteligentemente como o i.

 

Jurista

 

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