Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 10 de Novembro de 2016 às 20:05

Deste lado da América

A América nasceu de milhões de pessoas a fugir do passado, de olhos postos noutro mundo, num sonho que se chamou americano, num destino chamado futuro.

Há uns dez anos, quando foi recebido no Congresso dos Estados Unidos, Tony Blair, o então primeiro-ministro britânico, um pouco nervoso, comentou o que o filho lhe tinha dito: "(...) Não te esqueças que a América um dia foi nossa... Por isso não te preocupes, nunca vais poder fazer uma asneira tão grande como ter ficado sem ela."

 

Com menos de 250 anos, os Estados Unidos continuam a ser o país que mais modela o mundo; seguramente pelo seu poder económico, tecnológico, militar, etc., que continua ímpar no mundo. Mas também, e mais decisivo, por na História dos homens ter feito do futuro a fonte por excelência do significado.

 

A América nasceu de milhões de pessoas a fugir do passado, de olhos postos noutro mundo, num sonho que se chamou americano, num destino chamado futuro. Hoje esse futuro americano, feito herança, marca os comportamentos, as expectativas e as ambições das sociedades mais globalizadas do mundo. A nova tradição é a quebra da tradição. A nova tecnologia e as novas ciências são as terras do novo mundo, dos novos começos e da surpresa permanente do futuro. 

 

A realidade é hoje a tecnologia. A vida profissional é competição, inovação, mercados e movimento. A globalização é uma projecção de um entendimento "futurizado", americanizado, do mundo. A Web Summit, esta semana entre nós, é bem essa materialização: ideias, tecnologia, trabalho, mudança, globalização e dinheiro, muito dinheiro. Como Ayn Rand, a filósofa russa naturalizada americana, lembrou, a América criou a expressão "fazer dinheiro": "Se me perguntassem qual a maior distinção que poderia atribuir aos americanos, eu escolheria - porque ela contém todas as outras distinções - o facto de eles terem sido o povo que criou a expressão 'fazer dinheiro' - 'making money'. Nenhuma outra língua, nenhum outro país tinha antes usado aquela expressão. Os homens sempre tinham pensado na riqueza como uma quantidade estática: para ser tomada, mendigada, herdada, partilhada, roubada, ou obtida como favor. Os americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza é criada." A riqueza não está no passado, está no futuro. Cria-se a partir da mente humana. Do que inventamos, projectamos, queremos e fazemos.

 

Os povos sempre olharam o futuro, é certo; ora com esperança ou ambição, ora com receio ou desânimo. Olhavam, e muitos ainda olham o futuro, em função de quem entendiam eles mesmos ter sido no passado, consoante a uma tradição e a uma cultura. Com a América esta equação da temporalidade humana, assente no passado, na preservação e na tradição, mudou. A história da América foi sempre o futuro. Trata-se de uma mudança de perspectiva que corresponde a uma mudança de mundos, e que se constituiu na diferença que marca a nossa época.

 

Ontem como hoje, a ideia-chave para se entender a América, e por isso, o mundo globalizado, é o futuro - o futuro berço do futuro.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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