Adair Turner
Adair Turner 06 de fevereiro de 2018 às 14:00

Deve comprar bitcoin?

Os reguladores deviam manter-se atentos a qualquer especulação na área das criptomoedas que seja financiada por crédito. Mas como os valores totais das criptomoedas são iguais a uma fracção mínima da riqueza global do imobiliário, o risco continua a ser pequeno.

Em Dezembro, à medida que a cotação da bitcoin se aproximava dos 20 mil dólares, uma amiga perguntou-me se devia investir. Disse-lhe que não fazia a mínima ideia. Hoje, com o preço abaixo de metade desse valor, a minha resposta é a mesma.

 

Durante o próximo ano, a cotação da bitcoin pode duplicar, subir dez vezes ou cair 95% ou mais, e nenhuma análise económica pode ajudar a prever em que situação vai ficar. O seu valor é determinado de forma arbitrária pela psicologia colectiva de um conjunto grande de investidores; vai, em média, para onde eles pensam que deve ir. Tal como outras criptomoedas, a bitcoin não serve nenhum propósito económico, embora em termos macroeconómicos estas moedas provavelmente provoquem poucos danos.

 

Na economia moderna, o dinheiro tem um valor real bem definido porque os governos aceitam-no como meio de pagamento de impostos e emitem dívida que é definida em valores monetários. E também porque os bancos centrais asseguram a criação monetária total - quer através do sistema bancário estatal quer do sistema privado - e um crescimento compatível com uma inflação estável e relativamente baixa. De certa forma, o dinheiro é uma construção social arbitrária; mas o seu valor e capacidade para servir as funções económicas cruciais estão enraizadas na autoridade e nas instituições de emissão de moeda estatais.

 

Contudo, a qualquer momento, grupos de indivíduos podem escolher acreditar que algumas matérias-primas – um tipo específico de concha, ou ouro, ou tulipas – serão bem melhores enquanto reservas de valor do que o dinheiro, e o seu valor em termos monetários aumenta. O que importa é que o fornecimento dessa matéria-prima não aumente de forma rápida e ilimitada. Desde que seja esse o caso, o preço pode ser o que os especuladores quiserem. No início de 1636, uma libra de "switsers" (uma categoria de bolbos de tulipas) era comercializada nos mercados da Holanda por 60 florins; em meados de Fevereiro de 1637, o preço era de 1.500 florins. Na crise posterior, os preços dos bolbos caíram 99%.

 

Ao contrário do ouro ou das tulipas - cujo fornecimento a curto prazo é fixo e limitado pela natureza a médio prazo -, a imaterial bitcoin, em princípio, pode ser criada em quantidades infinitas. De facto, o abastecimento de moeda é limitado por algoritmos inteligentes, apoiados por uma elevada quantidade de poder informático, o que permitiu aos criadores da bitcoin alcançarem uma trindade anteriormente impossível: a "extracção" descentralizada, o fornecimento agregado limitado colectivamente e o anonimato.

 

Em teoria, esta última pode permitir que a bitcoin, e outras criptomoedas, não seja apenas uma reserva de valor arbitrária, mas um meio de troca anónimo de transacções de grande valor, como as malas cheias de notas de dólar sem uma marca que identifique o dono, mas agora numa forma digital. Mas, como argumentou Kenneth Rogoff, notas anónimas de elevado valor não têm um papel na legitimação do comércio. Contudo, são um meio privilegiado para as trocas de barões da droga, terroristas, para quem quer fugir ao fisco e cometer outros crimes. E como argumenta Rogoff, há motivos para as eliminar; a última coisa que o mundo precisa é de recriar o mesmo problema numa forma digital.

 

A Coreia do Sul baniu as transacções anónimas de criptomoedas e outros reguladores por todo o mundo estão a considerar fazer o mesmo. O melhor argumento para avançar e banir totalmente as criptomoedas é, na verdade, ambiental. As estimativas que indicam quanta electricidade é necessária para extrair bitcoin variam – alguns estimam que são necessários 30 terawatts/hora por ano (o equivalente a toda a procura por electricidade de Marrocos), enquanto outros sugerem que é um sexto desse valor. Mas, independentemente da quantidade necessária, as emissões de dióxido de carbono relacionadas estão a juntar-se ao aquecimento global, sem que haja um benefício social.

 

Ao mesmo tempo, os receios de que as bolhas especulativas nas criptomoedas possam levar a uma instabilidade macroeconómica parecem exagerados. Como mostrou Charles Kindelberger na sua investigação Manias, Panics, and Crashes, as bolhas especulativas e os "crashes" subsequentes levam, por vezes, a depressões pós-crash. Mas nem sempre: apesar de o "boom" de Wall Street na década de 1920 ter terminado na Grande Depressão, a bolha das tulipas nos anos de 1630 parece ter tido pouco impacto no ritmo de crescimento de médio prazo da Holanda.

 

O que importa é a dimensão do "boom" e se é financiado com dívida. Os "booms" e as quedas nos mercados accionistas individuais ou de matérias-primas específicas têm, tipicamente, poucos efeitos ao nível macro: e mesmo com fortes oscilações em todos os sectores dos mercados accionistas – como o "boom" e a queda do Nasdaq de 1998-2002 – pode ter apenas um impacto adverso suave no crescimento económico total. Por outro lado, os "booms" e as quedas no imobiliário têm sido, historicamente, mais perigosos, porque o valor total da riqueza imobiliária geralmente tem um valor patrimonial pequeno. E porque os "booms" neste sector são frequentemente financiados com dívida.

 

Por conseguinte, os reguladores deviam manter-se atentos a qualquer especulação na área das criptomoedas que seja financiada por crédito. Mas como os valores totais das criptomoedas são iguais a uma fracção mínima da riqueza global do imobiliário, o risco continua a ser pequeno. Alguns investidores individuais vão certamente perder, mas o impacto no crescimento económico deverá ser praticamente nulo.

 

Contudo, o desafio social mais amplo é canalizar a ingenuidade para uma inovação que aumente o bem-estar em vez de estar focada em jogos de soma zero. A tecnologia em que estão alicerçadas as criptomoedas pode ser usada para reduzir os custos das transacções e eliminar os riscos em múltiplas actividades financeiras e de "trading". Isso valeria a pena.

 

Em relação a se se deve investir em bitcoin, não sei dizer. Pessoalmente, preferiria comprar um bilhete da lotaria.

 

Adair Turner, presidente do conselho de administração do Institute for New Economic Thinking e ex- chairman da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, presidente da Comissão britânica das Transições Energéticas.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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Anónimo Há 2 semanas

Vá comprar o seu bilhete da lotaria, então. Boa sorte com isso. Ou continue a apostar no mercado regulado e orientado para mentes menos ávidas, como a sua.
Mas faça um favor ao resto do mundo. Não volte a escrever sobre o que desconhece. E mais, o seu ídolo, Rogoff, foi desacreditado por um aluno.

Anónimo Há 2 semanas

Diz tudo sobre um jornal quando deixam um atrasado mental destes escrever e publicar barbaridades desta forma. O mínimo seria exigir ao cavalheiro que gaste 10 minutos do seu tempo a investigar os assuntos antes de vir escrever bacuradas.

Anónimo Há 2 semanas

Mas o que seria de esperar de um: Adair Turner, presidente do conselho de administração do Institute for New Economic Thinking e ex- chairman da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, presidente da Comissão britânica das Transições Energéticas.


O Bitcoin não é ilimitado...

Anónimo Há 2 semanas

a imaterial bitcoin, em princípio, pode ser criada em quantidades infinitas?
Parei de ler aqui.

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