Michael Spence
Sandile Hlatshwayo
Michael Spence | Sandile Hlatshwayo 17 de agosto de 2017 às 14:00

Devemos estar preocupados com as tendências da produtividade?

Uma parte substancial do declínio no crescimento da produtividade pode não ser o resultado de um problema profundo com a alocação de recursos ou uma consequência de ciclos exógenos de inovação tecnológica sobre os quais temos pouco controlo.

Os economistas preocupam-se não só com a abordagem de questões difíceis, mas também com a formulação das próprias perguntas. Às vezes, repensar essas questões pode ser a chave para encontrar as respostas que precisamos.

 

Consideremos o debate sobre a produtividade. Os economistas que tentam explicar a aparente desaceleração estrutural no crescimento da produtividade têm feito a seguinte pergunta: Onde está o crescimento que falta? As suas respostas abrangem preocupações em relação à medição, mudanças estruturais no mercado de trabalho, potencial escassez de oportunidades de investimento, inovações tecnológicas que diluem a produtividade e desajustamentos ao nível das competências motivados pela tecnologia.

 

Mas também pode ser útil considerar uma questão mais fundamental: que crescimento da produtividade queremos realmente e a que preço?

 

Não há dúvida de que o crescimento da produtividade é desejável. É um dos principais impulsionadores do crescimento do PIB (especialmente nos países onde o crescimento da força de trabalho está a desacelerar) e de ganhos ao nível do rendimento. O forte crescimento do PIB e o aumento dos rendimentos podem então apoiar o cumprimento das necessidades e desejos humanos fundamentais.

 

Esta ligação é particularmente óbvia nos países em desenvolvimento, onde a expansão económica e o aumento dos rendimentos são condições prévias para a redução da pobreza e melhorias na saúde e na educação. Mas a ligação entre o crescimento agregado e o bem-estar individual não é menos visível nos países avançados - particularmente aqueles que se debatem agora com um crescimento lento, desemprego elevado, desvios de produção, sobreendividamento, taxas de câmbio desalinhadas e rigidezes estruturais.

 

Mas isso não significa que principal objectivo dos responsáveis políticos deva ser um maior crescimento da produtividade. As sociedades - incluindo governos e indivíduos – preocupam-se com uma série de coisas, desde cuidados de saúde e segurança até justiça e liberdade. Na medida em que o crescimento da produtividade - e, por sua vez, o PIB e o crescimento dos rendimentos - avance nesses objectivos sociais, ele é altamente desejável.

 

No entanto, entre os economistas e responsáveis políticos existe a tendência para enfatizar demasiado as medidas de desempenho relacionadas com o mercado, negligenciando a razão pela qual o desempenho é importante: o bem-estar humano. Os esforços para implementar um quadro mais abrangente para avaliar o desempenho económico, que reflicta as necessidades e desejos sociais, têm sido, em grande medida, infrutíferos.

 

Para determinar que crescimento da produtividade queremos, precisamos de ter uma visão mais ampla, que nos permita decidir a melhor forma de alocar os recursos limitados da sociedade, especialmente os seus recursos humanos mais valiosos. Essa perspectiva deve reconhecer a possibilidade de as medidas relacionadas com o mercado, particularmente o crescimento dos rendimentos reais (ajustado pela inflação), não serem tão importantes como eram no passado. E deve ter em conta as prioridades de uma sociedade, reveladas nas formas como os seus membros usam os seus recursos.

 

As descobertas e os avanços relacionados com a saúde, por exemplo, trouxeram grandes benefícios sociais desde a Segunda Guerra Mundial: aumento da longevidade e redução da mortalidade e morbilidade infantil, e não apenas mais produtividade e PIB. É por isso que o governo dos Estados Unidos, por exemplo, investe tanto na investigação médica: só os Institutos Nacionais de Saúde têm um orçamento anual de 32 mil milhões de dólares para financiar projectos de infra-estrutura e pesquisa que empregam um subconjunto do maior talento científico do país. Da mesma forma, a National Science Foundation e o braço de investigação científica do Departamento de Energia dos EUA recebem um total de cerca de 12 mil milhões de dólares por ano, que usam para avançar numa série de objectivos ao nível da engenharia, eficiência energética e energia verde, e das ciências naturais e sociais.

 

O retorno económico do investimento público é ainda mais difícil de calcular para despesas relacionadas com a segurança, onde os recursos alocados para a melhorar e a efectividade desses recursos pode ser incognoscível. Mas há poucas dúvidas de que a segurança é muito importante para o bem-estar das pessoas, o que influencia a alocação de recursos.

 

Em alguns casos, os desejos das pessoas podem realmente entrar em conflito com o objectivo de melhorar a produtividade. As redes sociais, por exemplo, foram muitas vezes ridicularizadas como um contribuinte fraco ou mesmo negativo para a produtividade. Mas não é esse o ponto das redes sociais. O que as pessoas valorizam nelas é a conectividade, interacção, comunicação e diversão que permitem.

 

Na verdade, para muitos indivíduos, particularmente em países mais ricos, a principal prioridade não é simplesmente tornarem-se mais ricos, mas sim viver uma vida mais rica, e é para este último objectivo que canalizam o seu tempo, rendimento e criatividade. À medida que as sociedades se tornam mais ricas, o valor relativo que é colocado em diferentes dimensões da vida pode mudar.

 

A alocação de recursos das sociedades seguirá essas mudanças de forma imprecisa, mas persistente. Isto é especialmente verdadeiro quando se trata de recursos humanos, mas os recursos do sector público também tendem a responder às mesmas preferências e valores a longo prazo, independentemente das imperfeições nos nossos mecanismos de escolha social.

 

Este tipo de evolução não é exclusivo dos países de elevado rendimento. A China alcançou - ou talvez tenha superado - o estágio durante o qual o foco na produtividade e no crescimento do PIB corresponde ao sentido de bem-estar dos cidadãos comuns. Como resultado, os recursos da China estar a ser cada vez mais redistribuídos para um portefólio mais equilibrado que ainda inclui o crescimento, mas que agrega protecção ambiental, bem-estar social, segurança e inovação num amplo conjunto de campos que se sobrepõem apenas em parte com o crescimento da produtividade e dos rendimentos.

 

Tudo isto sugere que uma parte substancial do declínio no crescimento da produtividade pode não ser o resultado de um problema profundo com a alocação de recursos ou uma consequência de ciclos exógenos de inovação tecnológica sobre os quais temos pouco controlo. Em vez disso, poderá reflectir uma mudança natural nas prioridades para outras dimensões do bem-estar.

 

Esta mudança não está isenta de riscos. Sem crescimento da produtividade, os rendimentos daqueles que se encontram no limite inferior da distribuição deverão permanecer inalterados, agravando a desigualdade e, como vimos ultimamente, comprometendo a estabilidade social e política. Diante disso, os governos devem dedicar recursos para reduzir a desigualdade, independentemente das preferências em mudança do cidadão médio.

 

Não há dúvida de que as sociedades podiam elevar substancialmente a produtividade e o crescimento dos rendimentos, se conseguissem reimplementar os seus recursos inteiramente nessa direcção. Mas se contrariar as preferências incorporadas nas escolhas de investimento privado e público nos tornaria, individual e colectivamente "melhores", é duvidoso, na melhor das hipóteses. O mais provável é que não seja, de todo, o caso.

 

Sandile Hlatshwayo, doutorada em Economia pela Universidade da Califórnia em Berkeley, vai juntar-se ao Fundo Monetário Internacional no outono. Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro naHoover Institution.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org 
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
fcj 17.08.2017

Pois é: Temos que assumir que a grande e democrata China está, com o seu esforço, trabalho e distribuição de rendimentos, a tornar-se a primeira grande potência! E nós andamos entretidos com o lazer...