Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 06 de Dezembro de 2016 às 20:00

Dez consequências de Trump

Assim como o referendo do Reino Unido se revelou surpreendentemente preditivo da vitória de Trump, Trump parece ser um indicador de viragem populista na Europa.

Para aqueles, entre nós, que estavam errados sobre as eleições presidenciais dos Estados Unidos, vale a pena suprimir reacções emocionais, pelo menos por um mês ou dois, e tentar um julgamento desapaixonado sobre o que a administração de Donald Trump pode significar para o mundo. Aqui estão dez consequências prováveis da presidência de Trump, divididas entre as boas e as más, de forma igual.

 

As boas notícias começam com o crescimento dos EUA, que deverá acelerar acima da média anual de 2,2% durante o segundo mandato do presidente Barack Obama. Isso acontece porque a aversão republicana aos gastos públicos e à dívida só se aplica quando um democrata como Obama ocupa a Casa Branca. Com um presidente republicano, o partido sempre se alegrou em aumentar os gastos públicos e relaxar os limites da dívida, com aconteceu com os presidentes Ronald Reagan e George W. Bush. Assim, Trump será capaz de implementar o estímulo orçamental keynesiano que Obama muitas vezes propôs, mas que foi incapaz de concretizar.

 

Os défices resultantes podem ser descritos como "economia pelo lado da oferta", em vez de estímulos keynesianos, mas o efeito será o mesmo: tanto o crescimento como a inflação vão aumentar. Com a economia dos EUA a aproximar-se do pleno emprego, o crescimento adicional vai elevar a inflação, mas essas más notícias só virão em 2018 e mais para a frente.

 

Em segundo lugar, reformas tributárias sensatas, como uma amnistia para empresas multinacionais que repatriam lucros estrangeiros, acabarão por se tornar lei. A hegemonia dos republicanos permitirá um acordo, com facilidade, sobre cortes nos impostos financiados principalmente por um maior endividamento público, em vez de se enfrentar a resistência dos lobbies à eliminação de excepções e brechas fiscais. Essas reformas fiscais criarão défices orçamentais ainda maiores o que, por sua vez, estimulará ainda mais o crescimento e a inflação.

 

Um terceiro impulso ao crescimento económico virá da desregulamentação. Ainda que as batalhas sobre a energia e as leis ambientais possam dominar as manchetes, o maior impacto económico virá da reversão da regulação bancária. Com os bancos a serem encorajados a relaxar as normas para a concessão de crédito, especialmente para os agregados familiares de rendimento médio, o aumento da construção residencial e do consumo financiado pela dívida deverá dar mais impulso ao crescimento. Uma desregulamentação excessiva pode provocar uma repetição da crise financeira de 2007, mas isso também é um risco para 2018, e daí para a frente.

 

Em quarto lugar, Trump poderá ser bom para a estabilidade geopolítica, pelo menos a curto prazo. A preferência de Trump pela realpolitik transacional face ao intervencionismo liberal de Obama deve estabilizar as relações com a Rússia e a China à medida que o mundo se divide em esferas de influência. Trump poderá dar à Rússia mais liberdade na Ucrânia e na Síria, em troca de restrições na Europa Central e nos países bálticos. O domínio inevitável da China na Ásia poderá ser aceite, desde que evite guerras abertas com o Japão, Taiwan e outros países cuja segurança é, teoricamente, garantida por tratados com os EUA. O Oriente Médio deverá permanecer um caldeirão de agitação geopolítica; mas, mesmo aqui, a preferência de Trump pelos homens fortes locais em relação à "promoção da democracia" poderá restaurar uma certa estabilidade (à custa dos direitos humanos).

Por último, a eleição de Trump poderá forçar os americanos a reconhecer falhas na sua própria democracia, mesmo que abandonem a "promoção da democracia" global. O facto de Trump ter perdido o voto popular em mais de dois milhões poderá dar um novo impulso aos esforços para reformar o Colégio Eleitoral – esforços que já resultaram na legislação necessária em estados representando 61% dos votos necessários. E a oposição esmagadora a Trump em estados como a Califórnia e Nova Iorque poderá encorajar os seus eleitores a eleger legislaturas para contrariar o conservadorismo federal com leis estaduais progressistas sobre questões que vão desde a qualidade do ar e cuidados de saúde até ao aborto, tratamento de imigrantes e controlo de armas.

 

Agora às más notícias. Pela primeira vez desde a década de 1930, os EUA têm um presidente que vê o comércio como um jogo de soma zero. A retórica proteccionista da campanha de Trump pode não ter sido entendida literalmente, mas se ele não cumprir qualquer das restrições comerciais prometidas, os republicanos sofrerão uma reacção do que é agora o seu eleitorado principal, os eleitores de regiões e indústrias em declínio.

 

A liderança global dos EUA está, portanto, obrigada a abandonar o livre comércio, a globalização e os mercados abertos. Ninguém pode prever os efeitos da maior mudança de regime na gestão económica global desde os anos 80; mas certamente serão negativas para as economias emergentes e para as empresas multinacionais cujos modelos de desenvolvimento e estratégias de negócios assumiram o livre comércio e os fluxos de capital aberto.

 

Uma segunda ameaça, mais imediata, advém da implememtação de grandes reduções de impostos e do aumento da despesa pública numa economia que já está próxima do pleno emprego, o que implica uma aceleração da inflação, taxas de juro mais altas ou provavelmente alguma combinação dos dois. Dada a probabilidade de um proteccionismo comercial adicional e medidas para remover os trabalhadores imigrantes, o aumento da inflação e das taxas de juro de longo prazo pode ser bastante dramático. O impacto nos mercados financeiros será perturbador, independentemente de a Fed intensificar agressivamente a política monetária para antecipar o aumento dos preços ou permitir que a economia "sobreaqueça" por um ano ou dois, permitindo que a inflação acelere.

 

Com a economia dos EUA a crescer mais rápido do que o esperado e as taxas de juro de longo prazo a subir, o fortalecimento excessivo do dólar é um terceiro grande risco. Mesmo que o dólar já esteja sobrevalorizado, poderá entrar numa espiral ascendente, como aconteceu no início dos anos 80 e no final dos anos 90, devido às dívidas em dólares acumuladas nos mercados emergentes por governos e empresas tentadas por taxas de juro quase nulas.

 

Em quarto lugar, a combinação da evolução do dólar e do proteccionismo representa grandes problemas para os países em desenvolvimento, com a possível excepção de algumas economias relativamente fechadas, como o Brasil, a Rússia e a Índia, cujas estratégias de desenvolvimento dependem menos do livre comércio e do financiamento externo.

 

Por último, a consequência mais perigosa da vitória de Trump pode ser o seu efeito de contágio na Europa. Assim como o referendo do Reino Unido se revelou surpreendentemente preditivo da vitória de Trump, Trump parece ser um indicador de viragem populista na Europa, o que poderá desencadear uma nova crise do euro e ameaçar a dissolução da União Europeia. As próximas vitórias contra o poder estabelecido, de acordo com as sondagens, estarão no referendo constitucional de Itália e na eleição presidencial da Áustria. Os globalistas só podem esperar que as sondagens voltem a estar erradas - mas na direcção oposta.

 

(Nota da tradução: O texto foi publicado originalmente a 28 de Novembro, antes da realização do referendo em Itália e das eleições presidenciais na Áustria).

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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00SEVEN Há 2 semanas

É a opinião do Senhor Anatole!
Muitos destes escritos e opiniões reflectem a escola de pensamento dos seus autores e não a realidade.
Por exemplo:
Anatole fala de pleno emprego partindo do princípio que 4.9% - número oficial - é pleno emprego só que por trás deste número está a realidade porque há 95.06 milhões de trabalhadores fora do mercado laboral!
"That's the number of Americans now counted as not in the labor force, a historic high that has confounded economists and policymakers. The total — 95.06 million to be more exact — has been rising consistently but surged by a gaudy 446,000 last month."
Esta é a realidade que levou os americanos a rejeitarem mais do mesmo que tem sido a mentira à qual Hilary iria dar continuidade.
É que, cansados de procurarem, os desempregados caem das estatísticas do governo o que lhes dá muito jeito
Quando falam que criaram milhares de empregos não nos dizem quantos empregos perderam para sabermos o resultado final e real.