Anthony Lake
Isabella Lövin
Anthony Lake | Isabella Lövin 07 de fevereiro de 2017 às 19:35

Dias negros para as crianças

Devemos proteger os direitos, vidas e futuros das crianças mais vulneráveis ??do mundo. Na medida em que o fizermos, ajudaremos a determinar também o nosso futuro comum.

O ano de 2016 será provavelmente lembrado por eventos militares e políticos, mas também deve ficar na história como um dos piores anos para as crianças desde a Segunda Guerra Mundial.

 

Imagens de crianças mortas, feridas e desesperadas encheram os meios de comunicação quase todos os dias: um menino pequeno atordoado e a sangrar depois de a sua casa ter sido bombardeada; pequenos corpos a serem retirados dos escombros; e pequenas sepulturas no litoral mediterrâneo que marcam as mortes de crianças desconhecidas.

 

Estas imagens são poderosas e desconfortáveis. Mas não conseguem captar a magnitude do sofrimento das crianças. Mais de 240 milhões de crianças estão a viver em zonas de conflito - desde os campos de extermínio da Síria, Iémen, Iraque e norte da Nigéria até áreas menos bem documentadas, mas igualmente horríveis, da Somália, do Sudão do Sul e do Afeganistão. E dos 50 milhões de crianças que vivem fora do seu próprio país ou foram deslocadas internamente, mais da metade foram arrancadas à força e enfrentam novas ameaças à sua vida e bem-estar.

 

Milhões de crianças estão subnutridas e não frequentam a escola; milhões testemunharam uma brutalidade indizível; e milhões são ameaçadas de exploração, abuso e pior. Isto não é retórica; é a realidade.

 

As Nações Unidas - com o apoio de países como a Suécia, e trabalhando através de um sistema coordenado de resposta humanitária que inclui a UNICEF - estão a aliviar o sofrimento sempre que podem, e onde podem. Mas a quantidade e a complexidade das crises estão a testar esse sistema como nunca. Novos desafios, como o extremismo, estão a aumentar os riscos para as crianças, e a tornar mais difícil e perigoso chegar até elas. Ao mesmo tempo, grupos armados estão cada vez mais a atacar escolas, hospitais e casas, agravando o sofrimento de pessoas inocentes.

 

As soluções políticas para esses conflitos são o caminho mais seguro para deter o sofrimento e acabar com violações tão selvagens dos direitos humanos. Mas, fora esse resultado ideal, precisamos de fortalecer a capacidade actual do sistema humanitário para chegar às crianças em maior risco.

 

Há mais de 70 anos, os líderes mundiais abordaram a crise humanitária sem precedentes que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, criando novas instituições para prestar assistência imediata aos necessitados. Estas novas entidades globais lançaram as bases para um futuro baseado na cooperação, diálogo, e resultados, em vez de conflito, desastre e ruína.

 

Esse foi um ponto de viragem na história do mundo; agora chegámos a outro. Precisamos de convocar hoje o mesmo espírito de solidariedade e criatividade que inspirou as gerações anteriores, não para fundar novas instituições, mas para encontrar novas formas de responder às duras realidades do nosso tempo.

 

Para começar, precisamos urgentemente de aproveitar a inovação para aumentar a nossa capacidade de chegar às crianças que estão impedidas de receber assistência em áreas sitiadas ou comunidades controladas por extremistas. Devemos explorar todas as opções, como a utilização de drones para lançar comida e medicamentos, e o desenvolvimento de aplicações móveis para monitorizar as necessidades e acompanhar os fornecimentos no solo, e para manter os trabalhadores humanitários mais seguros. Ainda que nunca vá existir forma de substituir um acesso humanitário seguro e sem entraves, precisamos de explorar todas as vias para chegar às crianças em perigo.

 

De forma mais ampla, devemos fazer um melhor trabalho de coordenação entre os governos e organizações para garantir ajuda de curto e de longo prazo de forma mais eficiente, e aproveitar ao máximo o dinheiro disponível. Com a proliferação de crises crónicas, deveríamos maximizar as sinergias entre as iniciativas humanitárias e de desenvolvimento, porque as duas caminham lado a lado. A forma como respondemos em situações de emergência estabelece uma base para o crescimento e estabilidade futuros, e a forma como investimos em desenvolvimento pode ajudar a construir resiliência contra emergências futuras.

 

Por fim, precisamos de mudar a forma como os governos calibram a ajuda crítica que fornecem para responder a necessidades flutuantes. Nos últimos anos, com os pedidos de ajuda a aumentarem, os países que passaram por um processo de austeridade tiveram cada vez mais que justificar os seus desembolsos de ajuda externa. Muitos doadores destinaram os seus fundos de ajuda para fins específicos. Sem dúvida, esses fundos serão sempre um instrumento indispensável tanto para os esforços humanitários como para os esforços de desenvolvimento; mas no ambiente imprevisível de hoje, um financiamento mais flexível e de longo prazo é fundamental.

 

O financiamento "de base", como é sabido, permite que a ONU e as organizações não-governamentais reajam mais rapidamente em situações de emergência e planeiem de forma mais estratégica. Esse financiamento permite-nos oferecer ajuda crítica quando as pessoas mais precisam, em vez de termos de esperar que os países respondam a apelos humanitários específicos. Isto é especialmente importante para abordar as crises "esquecidas" de que os meios de comunicação não falam.

 

A Suécia tem sido defensora de um apoio mais flexível às organizações da ONU, porque isso melhora os resultados. Por esta razão, o governo da Suécia decidiu recentemente duplicar a sua contribuição de 2016 para os fundos centrais da UNICEF. Agora que o mundo está a trabalhar em conjunto numa nova agenda de desenvolvimento global, esperamos que esta prática se espalhe e inspire outros governos a avançarem mais para um financiamento de alta qualidade para a ajuda humanitária e o desenvolvimento sustentável.

 

Devemos proteger os direitos, vidas e futuros das crianças mais vulneráveis do mundo. Na medida em que o fizermos, ajudaremos a determinar também o nosso futuro comum.

 

Anthony Lake é director executivo da UNICEF. Isabella Lövin é ministra da Cooperação para o Desenvolvimento Internacional e vice-primeira-ministra da Suécia.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar