Harold James
Harold James 05 de fevereiro de 2017 às 20:00

Dívida nacional e ordem global

Se May conseguir convencer Trump de que a segurança é mais importante do que uma aposta na dívida alavancada, vai minar uma parte-chave da sua estratégia doméstica, ao mesmo tempo que resgatará parte do antigo espírito de defesa mútua.

À medida que entramos no novo ano, todas as indicações apontam para uma reformulação da ordem global. Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos, o presidente chinês Xi Jinping defendeu a globalização em Davos e líderes da extrema-direita como Marine Le Pen e Geert Wilders realizaram uma "cimeira europeia alternativa" na cidade alemã de Koblenz.

 

Trump e os seus aliados populistas na Europa condenaram a globalização, enquanto Xi se destaca agora como o seu principal defensor. Mas a mensagem de Trump, em particular, é ambivalente: perseguir interesses económicos estritamente nacionais pode exigir menos cooperação internacional, mas reforçar a segurança requer mais.

 

O impulso nacionalista do discurso de Trump na tomada de posse ecoou o isolacionismo defendido pelo aviador racista Charles Lindbergh que, como porta-voz do America First Committee, fez pressão para manter os Estados Unidos fora da Segunda Guerra Mundial. E agora Trump, culpando os líderes anteriores dos Estados Unidos pelas dificuldades económicas enfrentadas por muitos americanos, renunciou ao papel histórico do país na criação e manutenção da ordem do pós-guerra. Ainda que a sua objecção à "América global" não seja nova, ouvi-la de um presidente dos Estados Unidos é certamente uma novidade.

 

A visão de Trump está centrada na política da dívida. Tendo gerido um grande negócio imobiliário financiado por dívida, a sua intuição é que a renegociação da dívida pode ser usada para devolver à América o que "outros países" supostamente lhe tiraram. Trump focou-se na China e na Alemanha, porque mantêm grandes excedentes comerciais bilaterais com os Estados Unidos – que totalizaram 366 mil milhões de dólares e 74 mil milhões de dólares, respectivamente, em 2015. Pouco antes da tomada de posse, Trump sugeriu que poderia impor tarifas altas sobre os carros alemães importados, dirigindo-se à BMW com particular satisfação.

 

Com os seus excedentes de conta corrente acumulados, ambos os países tornaram-se grandes credores dos Estados Unidos, na forma de dívida pública, no caso da China, e de uma ampla variedade de activos securitizados, no caso da Alemanha. Enquanto as reservas estrangeiras da China estão a cair rapidamente agora, as da Alemanha estão a aumentar. Mas, em ambos os casos, a eliminação imediata dos défices bilaterais da América tornaria simplesmente os americanos mais pobres. Seria o mesmo do que se a Grécia eliminasse de repente os seus grandes défices com o resto da Europa.

 

No passado, os decisores políticos norte-americanos tentaram estimular a criação de emprego, a nível interno, levando os países excedentes a gerarem défices orçamentais ou a flexibilizarem a sua política monetária, para que pudessem crescer mais rápido e comprar mais bens americanos. Os antigos presidentes dos EUA, Jimmy Carter e Ronald Reagan, assumiram essa postura no final dos anos 70 e 80, e o presidente Barack Obama fê-lo de novo no meio da crise do euro que começou em 2009.

 

Esta é a forma clássica de ajustamento no sistema económico internacional, e antigos governos dos Estados Unidos passaram a seguir este método aplicando pressão bilateral e através de instituições como o G7 e o Fundo Monetário Internacional. Mas essas negociações sempre tiveram resultados mistos. Inevitavelmente, nenhum dos lados fica satisfeito, e o processo passa a ser visto como um falhanço.

 

Trump pensa que este velho processo falhou porque os países excedentários fizeram batota. Segundo esta perspectiva, a China manteve deliberadamente a sua taxa de câmbio pressionada nos anos anteriores a 2015, subsidiou as empresas chinesas e restringiu os direitos de propriedade estrangeiros; e a Alemanha também manipulou a sua moeda, primeiro no sistema de câmbio rígido da Europa depois de 1979, e depois dentro da Zona Euro após de 1999. A União Europeia e a Zona Euro, concluiu Trump, não são mais do que mecanismos para proteger os interesses alemães e ampliar o seu poder.

 

Existem duas alternativas à abordagem clássica de ajustamento. A primeira opção, mais plausível, é a celebração de acordos bilaterais. Há alguns precedentes históricos, como quando o Japão, nos anos 1980, concordou "voluntariamente" em limitar o número de carros vendidos nos EUA. Consequentemente, o Japão parou de vender carros baratos e subiu rapidamente a cadeia de valor.

 

Depois, há uma alternativa mais radical. Trump pode seguir uma versão nacionalista do que é tipicamente uma exigência de esquerda: um perdão de dívida. E o seu raciocínio estratégico pode implicar que a China mantenha os seus próprios níveis elevados de dívida interna, e um agravamento dos problemas de dívida na Zona Euro.

 

O encontro da primeira-ministra britânica, Theresa May, com Trump, em Washington, a 27 de Janeiro, despertou muita excitação em relação a um novo acordo de segurança baseado no "capitalismo anglo-americano". O velho estilo do capitalismo anglo-americano foi construído sobre a indústria; mas o novo estilo assenta na dívida - particularmente a propriedade imobiliária - para manter o consumo e elevados padrões de vida.

 

O governo de May poderia desempenhar um papel decisivo no actual reordenamento internacional. Ainda que tenha indicado que o Reino Unido vai seguir um "Brexit duro" - uma separação completa da UE - também enfatizou a importância da UE e da NATO para o quadro de segurança europeia e global.

 

Se May conseguir convencer Trump de que a segurança é mais importante do que uma aposta na dívida alavancada, vai minar uma parte-chave da sua estratégia doméstica, ao mesmo tempo que resgatará parte do antigo espírito de defesa mútua. Vale a pena lembrar que o único presidente dos EUA a promover a frase "América primeiro" foi Woodrow Wilson, que acabou por tentar construir um elaborado sistema internacional baseado na segurança e cooperação partilhadas.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Roger Russo Há 3 semanas

Francamente algo falhou na tradução ou o artigo está truncado. Não percebi peva.