Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro 22 de novembro de 2017 às 23:00

Do Boletim de Cotações à DMIF

Os muros que se continuam a construir entre os grandes e os pequenos investidores só contribuem para afastar os já poucos que ainda olham para a bolsa portuguesa. Que já é bem menos interessante do que há 20 anos.

O Negócios nasceu em 23 de Novembro de 1997, numa altura em que se viviam tempos de euforia na bolsa de valores e todos queriam imitar os ganhos que tinham ouvido o vizinho, o colega ou o amigo gabar-se de ter conseguido de forma fácil. O PSI-20 valorizou mais de 70% nesse ano, o que representa o retorno anual mais elevado de sempre, e o índice negociava acima dos 10.000 pontos, quase o dobro do actual nível.

Foi para responder à crescente procura de informação e escassez de oferta sobre a bolsa que foi lançado o então Canal de Negócios, em www.negocios.pt, e meses depois nasceu o semanário Jornal de Negócios.

Há 20 anos, o acesso à internet ainda era exíguo e a forma como se fazia informação totalmente diferente. O ponto alto do dia chegava às redacções por correio. Era no Boletim de Cotações da Bolsa de Valores de Lisboa e Porto (há já muitos anos extinto e de que poucos hoje se lembrarão) que vinham as comunicações oficiais das empresas cotadas. Resultados e todo o tipo de factos relevantes, que hoje nos chegam através do site da CMVM, eram na altura publicados num "caderninho" enviado pela bolsa através dos CTT.

Na época, o acesso à informação era escasso. Muitos investidores juntavam-se nas instalações da bolsa para partilharem informação e trocarem palpites sobre quais as cotadas que estavam mais atractivas. Eram muito poucos os que tinham acesso à internet para ler notícias e consultar as cotações. Duas décadas depois, o cenário é bem diferente.

A informação chega-nos de todo o lado, das mais variadas formas e a toda a hora.

Mas, paradoxalmente, 20 anos depois e apesar de todos os avanços tecnológicos, o pequeno investidor português não beneficiou de grandes progressos na informação que tem ao dispor para aplicar as suas poupanças na bolsa portuguesa. Desde logo nas análises que tem ao seu dispor. Em 1997, eram muitas as corretoras que produziam notas de "research" sobre dezenas de cotadas portuguesas. Hoje, bastam os dedos de uma mão para contar os bancos de investimento que cobrem de forma abrangente a bolsa nacional.

Acresce que, por decisão dos reguladores, o "research" vai ser um bem ainda mais escasso e inacessível. A nova directiva para os mercados financeiros, que vai entrar em vigor em 2018 e é denominada de DMIF, vai limitar a divulgação de notas de análise. Saber se os resultados do BCP ou da EDP ficaram acima ou abaixo do esperado pode ficar reservado para os bancos de investimento e deixar os pequenos investidores a adivinhar.

Numa altura em que são as máquinas que decidem e efectuam grande parte das transacções nos mercados, é também incompreensível como o acesso às cotações em tempo real não é já uma "commodity" e disponível para todos.

Os muros que se continuam a construir entre os grandes e os pequenos investidores só contribuem para afastar os já poucos que ainda olham para a bolsa portuguesa. Que já é bem menos interessante do que há 20 anos. 

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