Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 02 de janeiro de 2017 às 19:32

Doença crónica

Mudou-se o regime político, mas não se reformulou o modelo de sociedade e não se alterou o modelo de desenvolvimento.

A FRASE...

 

"Por maior que seja o jeito e a esperteza, enquanto não houver investimento e crescimento tudo se manterá frágil e perigoso."

António Barreto, Diário de Notícias, 1 de Janeiro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O jeito e a esperteza dos responsáveis políticos são a explicação para a tortura a que são submetidos os portugueses há quatro décadas, com a eterna repetição das mesmas lamentações a propósito do investimento e crescimento que não existem. Uma doença crónica - e estes sintomas são tão recorrentes que acabam por ser a condição normal desta sociedade e desta economia - recomenda uma atenção permanente aos factores que estão na sua origem. Se as condições sociais e económicas são o que as sucessivas decisões políticas foram configurando, é na política que tem de ser procurada a origem desta doença crónica. Se a virtude da democracia é afastar os que fracassam sem ter de recorrer à violência, a doença crónica da democracia portuguesa manifesta-se na eterna reabilitação das mesmas propostas e dos mesmos protagonistas porque nada se provou contra eles: é nisto que está o seu jeito e a sua esperteza.

 

Na primeira década da democracia portuguesa, o tema do modelo de sociedade tinha uma posição de relevo no debate político. O pedido de adesão à Comunidade Europeia e a sua concretização em 1985 parecia ter resolvido essa questão e a disciplina da moeda única prometia a entrada num tempo novo de responsabilidade financeira. Foi uma ilusão. O modelo de sociedade do corporativismo proteccionista não foi alterado, como não foi corrigido o modelo de desenvolvimento, apesar de perdida a dimensão imperial com a descolonização e depois de integrados no Estado os centros de acumulação de capital que tinham financiado o investimento e o crescimento até 1975. Mudou-se o regime político, mas não se reformulou o modelo de sociedade e não se alterou o modelo de desenvolvimento.

 

O resultado não podia ser diferente do que é, e a doença continua crónica - mas os doentes julgam que estão saudáveis.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo 03.01.2017

Insiste sempre no mesmo. Escreve bem, mas os seus artigos são muito repetitivos. Não se aprende nada consigo depois de ler dois ou três.
O fraco desenvolvimento da economia portuguesa depois da adesão à CEE tem bastante a ver com a élite político-empresarial que tivemos e continuamos a ter. Mas esta não existe no vácuo.
O que explica muito do nosso insucesso, incluindo a péssima qualidade da classe empresarial dos últimos 20 anos, tem a ver com um erro colossal de política económica: a política cambial louca do Cavaco (+Beleza e A. Borges), que foi prosseguida sem interrupção até hoje. E, já agora, culminou na adesão ao Euro com o escudo brutalmente sobrevalorizado.
Durante 25 anos o sector concorrencial, aberto ao exterior, definhou. E o sector protegido, o dos bens não transacionáveis cresceu de forma desmuserada. Claro, o crédito fácil acabou em 2011, e agora temos um país com uma estrutura económica extremamente endividada face ao exterior e muito pouco competitiva. Mortal!





pub