Oscar Herencia
Oscar Herencia 28 de setembro de 2017 às 19:40

Dois países, um mercado

Reconheço que os espanhóis ainda têm um longo caminho a percorrer para conhecer melhor Portugal e os portugueses… Não entendo a falta de curiosidade face a uma cultura que sempre viveu tão perto.

Há precisamente dez anos aceitei mudar-me com a minha família para Portugal para liderar a operação local de uma das maiores multinacionais do mundo na área dos seguros de vida. Uma reflexão prévia fez-me concluir rapidamente que aprender português e conhecer a cultura portuguesa seriam as minhas prioridades. Não entendo como é possível um estrangeiro viver anos a fio em Portugal e não falar o idioma, não conhecer a cultura e continuar fechado nos seus círculos próximos.

 

Fiz questão de me integrar no mundo português, experienciando intensamente os hábitos, as tradições, as perspectivas. Os meus filhos cresceram e estudaram cá, o mais novo jogou futebol na escola do Sporting Clube de Portugal em Carcavelos. Agora, já adolescente e a viver em Espanha, tornou-se piloto de "karting" e insistiu em colocar no seu capacete as bandeiras de Portugal e de Espanha. Porque ambos se sentem metade portugueses.

 

Em 2012, a minha empresa pediu-me para voltar às origens. Devo confessar que me custou. O meu círculo de amigos era já grande e já me apelidavam de "o espanhol mais português que conheciam". Nada me escapava no idioma e até já conhecia os trocadilhos. Sentia-me em casa.

 

Assumi temporariamente a liderança simultânea das operações independentes de Portugal e Espanha, mas acabei por sugerir a integração da operação ibérica - o projecto da minha vida. Uma integração real… com directores ibéricos de ambas as nacionalidades.

 

Serve esta introdução para explicar que, hoje em dia, além de ser um gestor ibérico, também me sinto um cidadão ibérico. E sinto e vivo os dois lados. Algo indubitavelmente estranho, mas ao mesmo tempo entusiasmante.

 

Entendo as relações cordiais, mas distantes, entre portugueses e espanhóis, motivadas sobretudo pelo factor histórico. Os ingleses são há muito os aliados naturais das gentes lusas. Mas basta olhar e perceber que existe uma proximidade entre os nossos povos… Basta atravessar a fronteira para encontrar casas com estilo português, já bem dentro do território espanhol. Somos próximos geograficamente, mas falta comunicação e sobretudo a vontade de cooperação, sobretudo entre algumas elites. Porque não trabalhamos em conjunto?

 

Escolhendo o melhor de cada lado da fronteira, há muitas áreas onde se pode potenciar a cooperação, sem perda de soberania de nenhum dos lados. A perspectiva de um "Benelux Ibérico", que aumentasse o protagonismo e peso institucional e económico dos dois países, já foi avançada em alguns fóruns. O conceito passaria por eliminar barreiras ao investimento nos dois países e integrar áreas que beneficiassem ambos os povos. O recente acordo para a compra centralizada de medicamentos foi um grande passo dado pelos governos dos dois países. Mas haverá muito a fazer noutras áreas estratégicas. Por exemplo, replicar o sucesso da Euro-região Galiza-Norte de Portugal e implementar uma estratégia conjunta para todas as regiões fronteiriças que constituem o interior esquecido de ambos os países.

 

Reconheço que os espanhóis ainda têm um longo caminho a percorrer para conhecer melhor Portugal e os portugueses… Não entendo a falta de curiosidade face a uma cultura que sempre viveu tão perto. Por vezes ansiamos, porque eu também sou espanhol e não quero parecer vigarista, por nos aproveitarmos dos sucessos portugueses e torná-los ibéricos (veja-se o caso do cão do Obama, um cão de água português que rapidamente foi rotulado de raça ibérica). Reconheço também que há uma certa desconfiança natural por parte dos portugueses. Mas as vantagens de uma cooperação mais próxima elevariam indubitavelmente a força institucional, económica, social e até interpessoal. Seria uma prova da força de Portugal e de Espanha como países soberanos com uma palavra a dizer neste mundo em mudança.

 

Nota: As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e não vinculam a MetLife na Iberia.

 

Director-geral MetLife na Iberia

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comentários mais recentes
surpreso 30.09.2017

COMPLEXOS .DE INFERIORIDADE ,DO LADO DE CÁ,SUPERIORIDADE, DO LADO DE LÁ.A MONSTRUOSIDADE DA CATALUNHA MOSTRA QUE AINDA PODE SER PIOR.

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