Michael Spence
Michael Spence 15 de Dezembro de 2016 às 20:00

Donald Trump e a nova ordem económica

Enquanto as identidades das pessoas estiverem organizadas, como estão agora, em torno da cidadania nos Estados-nação, uma abordagem que coloque o país em primeiro lugar pode ser a mais eficaz.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a hierarquia das prioridades económicas tem sido relativamente clara. No topo estava a criação de uma economia global aberta, inovadora e dinâmica baseada no mercado, na qual todos os países podem (em princípio) prosperar e crescer. Em segundo lugar - um segundo lugar distante - estava a geração de padrões de crescimento nacional vigorosos, sustentáveis e inclusivos. Agora já não.

 

Na verdade, parece estar em curso uma inversão. Atingir um forte crescimento inclusivo a nível nacional para reavivar uma classe média em declínio, dar um impulso a rendimentos estagnados e reduzir o elevado desemprego jovem está agora a ganhar precedência. Os acordos internacionais mutuamente benéficos que regem os fluxos de bens, capital, tecnologia e pessoas (os quatro fluxos-chave na economia global) só são apropriados quando reforçam - ou, pelo menos, não prejudicam - o progresso no cumprimento das mais altas prioridades.

 

Esta reversão tornou-se evidente em Junho, quando os britânicos - incluindo aqueles que beneficiam significativamente do actual sistema económico e financeiro aberto - votaram a favor da saída da União Europeia, com base no que se pode chamar de princípio de soberania. As instituições da UE foram vistas como estando a prejudicar a capacidade do Reino Unido de impulsionar a sua própria economia, regular a imigração e controlar o seu destino.

 

Uma visão semelhante vem animando movimentos políticos nacionalistas e populistas em toda a Europa, muitos dos quais acreditam que os arranjos supra-nacionais devem vir em segundo lugar face à prosperidade doméstica. A UE – que, na sua actual configuração, deixa os seus Estados-membros com poucos instrumentos políticos para satisfazer as necessidades dos seus cidadãos - é um alvo fácil.

 

Mas, mesmo sem esses arranjos institucionais, existe a sensação de que enfatizar os mercados e vínculos internacionais pode dificultar a capacidade de um país para promover os seus próprios interesses. A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos deixou isso muito claro.

 

Em consonância com o principal slogan da campanha de Trump, "Tornar a América grande outra vez", foram os seus comentários sobre a "América primeiro" os mais reveladores. Embora Trump possa prosseguir acordos bilaterais mutuamente benéficos, pode-se esperar que eles sejam subordinados às prioridades domésticas, especialmente aos objectivos distributivos, e apoiados apenas na medida em que sejam consistentes com essas prioridades.

 

A frustração dos eleitores dos países desenvolvidos com a antiga arquitectura económica global guiada pelo mercado não é infundada. Essa ordem permitiu que forças poderosas, por vezes fora do controlo de autoridades eleitas e responsáveis políticos, moldassem as economias nacionais. Pode ser verdade que algumas elites optaram por ignorar as consequências adversas – em termos de distribuição e emprego -  relacionadas com a velha ordem, ao mesmo tempo que colhiam os benefícios. Mas também é verdade que a velha ordem, tomada como sacrossanta, impediu a capacidade das elites de resolver esses problemas, mesmo que tentassem.

 

Mas não foi sempre assim. Na sequência da Segunda Guerra Mundial, os EUA, motivados em parte pela Guerra Fria, ajudaram a criar a velha ordem, facilitando a recuperação económica no Ocidente e, ao longo do tempo, criando oportunidades de crescimento para os países em desenvolvimento. Durante 30 anos, os aspectos distributivos dos padrões globais de crescimento que esses esforços sustentaram foram positivos, tanto para os países individuais como para o mundo, como um todo. Comparado com qualquer coisa que veio antes, a ordem do pós-guerra foi uma bênção para a inclusão.

 

Mas nada dura para sempre. À medida que a desigualdade entre os países diminuiu, a desigualdade dentro dos países aumentou - ao ponto que a reversão das prioridades era, provavelmente, inevitável. Agora que a reversão chegou, chegaram também as consequências. Embora seja difícil dizer com precisão quais serão, algumas parecem bastante claras.

 

Para começar, os EUA serão mais relutantes em absorver uma parcela desproporcional do custo de fornecer bens públicos globais. Ainda que isso possa ser colmatado por outros países, haverá um período de transição de duração desconhecida, durante o qual o fornecimento de tais bens pode diminuir, minando potencialmente a estabilidade. Por exemplo, é provável que os termos de envolvimento na NATO sejam renegociados.

 

O multilateralismo - há muito tempo possibilitado pelo mesmo tipo de contribuição assimétrica, embora normalmente proporcional ao rendimento e à riqueza dos países - também perderá força, à medida que a tendência para acordos bilaterais e regionais de comércio e investimento acelere. É provável que Trump seja um dos principais defensores desta abordagem; na verdade, até mesmo acordos comerciais regionais podem ser descartados, como sugere a sua oposição à ratificação da Parceria Transpacífico de 12 países.

 

Isto cria uma oportunidade para a China liderar o estabelecimento de um pacto comercial para a Ásia - uma oportunidade que os líderes chineses já estão dispostos a aproveitar. Em conjunto com a sua estratégia "um cinto, uma rota" e a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, a influência da China na região irá expandir-se significativamente.

 

Ao mesmo tempo, para os países em desenvolvimento que não têm o poder económico da China, o afastamento do multilateralismo pode ser prejudicial. Enquanto os países pobres e menos desenvolvidos encontram oportunidades para crescer e prosperar sob a antiga ordem, terão dificuldades em negociar de forma eficaz numa base bilateral. A esperança é que o mundo reconheça o seu interesse colectivo em manter abertas as vias de desenvolvimento para os países mais pobres, tanto para benefício desses países como para a paz e segurança internacionais.

 

Além do comércio, a tecnologia é outra poderosa força global que provavelmente será tratada de maneira diferente na nova ordem, tornando-se sujeita a mais regulamentações nacionais. As ameaças cibernéticas exigirão, contudo, algumas regulamentações e exigirão uma evolução das intervenções políticas. Mas outras ameaças - por exemplo, as falsas notícias que proliferaram no Ocidente (e, em particular, nos EUA durante a campanha presidencial) - também podem exigir uma abordagem mais prática. E a adopção de tecnologias digitais pode precisar de ser estimulada, para que o ajustamento estrutural da economia possa manter-se.

 

A nova ênfase nos interesses nacionais tem claramente custos e riscos. Mas também pode trazer benefícios importantes. Uma ordem económica global que assenta numa base desmoronada - em termos de apoio democrático e de coesão política e social nacional - não é estável. Enquanto as identidades das pessoas estiverem organizadas, como estão agora, em torno da cidadania nos Estados-nação, uma abordagem que coloque o país em primeiro lugar pode ser a mais eficaz. Goste-se ou não, estamos prestes a descobrir.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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