Robert Shiller
Robert Shiller 04 de dezembro de 2016 às 20:00

Donald Trump e o sentido de poder

A vitória de Trump parece claramente derivar de um sentimento de impotência económica, ou medo de perder poder, entre os seus apoiantes. Para eles, o seu slogan "Tornar a América grande outra vez" soa como "Torná-lo a SI grande outra vez".

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, fez campanha, em parte, com uma proposta de redução drástica dos impostos para os mais ricos, um grupo cujos membros têm, na generalidade, uma educação de elite. Ainda assim, o seu apoio mais entusiasta tende a vir daqueles com rendimentos médios e estagnados, e baixos níveis de educação. Como assim?

 

A vitória de Trump parece claramente derivar de um sentimento de impotência económica, ou medo de perder poder, entre os seus apoiantes. Para eles, o seu slogan "Tornar a América grande outra vez" soa como "Torná-lo a SI grande outra vez": o poder económico será dado às multidões, sem tirar nada dos que já são bem-sucedidos.

 

Aqueles que estão no lado negativo da crescente desigualdade económica geralmente não querem políticas governamentais que parecem folhetos. Geralmente não querem que o governo torne o sistema tributário mais progressivo, para impor impostos punitivos sobre os ricos, com o objectivo de lhes dar o dinheiro a eles. A redistribuição parece humilhante. Parece que é ser-se rotulado como um falhado. Parece instável. Parece estar preso num relacionamento de dependência, que pode entrar em colapso a qualquer momento.

 

Os desesperadamente pobres podem aceitar os folhetos, porque sentem que precisam. Porém, para aqueles que se consideram, pelo menos, classe média, qualquer coisa que cheire a folheto não é desejada. Em vez disso, eles querem o seu poder económico de volta. Querem ter o controlo das suas vidas económicas.

 

No século XX, os comunistas politizaram a desigualdade económica, mas quiseram garantir que a sua agenda não podia ser interpretada como uma esmola ou caridade para os menos bem-sucedidos. Era fundamental que os comunistas assumissem o poder por meio de uma revolução, na qual os trabalhadores se unissem, agissem e se sentissem com poder.

 

Os apoiantes de Trump chamam ao seu triunfo uma revolução, também, embora a violência - pelo menos na própria campanha - se tenha limitado a insultos e ofensas. Mas foi bastante desagradável inspirar os seus apoiantes que interpretam a agressividade como uma evidência do poder.

 

Certamente não é apenas na América que as pessoas desejam um sentido de realização profissional, em vez de simplesmente dinheiro para viver. Em nenhum país parece sensato, em geral, responder à crescente desigualdade económica impondo impostos pesados sobre os ricos e transferindo o dinheiro para os outros. Parece que é alterar as regras do jogo depois de ele ter terminado.

 

No seu recente livro Taxing the Rich: A History of Fiscal Fairness in the United States and Europe, Kenneth Scheve, da Universidade de Stanford, e David Stasavage, da Universidade de Nova Iorque, usam dois séculos de dados sobre impostos e desigualdade de rendimentos para examinar os resultados de 20 países. Os autores descobriram que havia pouca ou nenhuma tendência para os governos tornarem os impostos mais progressivos quando a desigualdade aumentava.

 

Katherine Cramer, autora de The Politics of Resentment, teve uma percepção deste resultado no Wisconsin onde, como Trump, o governador do estado, Scott Walker, tem sido popular entre os eleitores da classe trabalhadora. Depois de ter sido eleito em 2010, Walker cortou os impostos para os rendimentos mais elevados, recusou subir o salário mínimo acima do exigido a nível federal e rejeitou as trocas de seguros criadas pela reforma dos cuidados de saúde do presidente Barack Obama, em 2010, que teriam beneficiado as pessoas com rendimentos mais baixos. Em vez disso, Walker prometeu medidas que tirariam o poder dos sindicatos, acções que normalmente são percebidas como susceptíveis de diminuir os rendimentos da classe trabalhadora.

 

Cramer entrevistou eleitores rurais da classe trabalhadora no Wisconsin, para tentar entender por que é que apoiavam Walker. Os entrevistados enfatizaram os seus valores rurais e o seu compromisso com o trabalho árduo, que tem sido uma fonte de orgulho pessoal e identidade. Mas também enfatizaram o seu sentimento de impotência contra aqueles que são percebidos como injustamente favorecidos. Ela concluiu que o apoio a Walker, num contexto de declínio económico, reflectia a sua raiva e ressentimento extremos em relação aos privilegiados das grandes cidades que, antes de Walker, os ignoraram, excepto para cobrar impostos. E os seus impostos foram, em parte, para pagar os seguros de saúde e planos de reforma dos funcionários do governo, benefícios que eles próprios muitas vezes não podiam pagar. Eles queriam poder e reconhecimento, o que Walker lhes parecia oferecer. 

Esses eleitores também estão preocupados com o impacto do rápido aumento da tecnologia da informação nos empregos e nos rendimentos. As pessoas economicamente bem-sucedidas hoje tendem a ser as tecnologicamente mais experientes, não as que vivem no Wisconsin rural (ou qualquer sítio rural). Esses eleitores da classe trabalhadora sentem uma perda de optimismo económico; contudo, por admirarem o seu próprio povo e por defenderem os seus valores, querem ficar onde estão.

Trump fala a língua destes eleitores; mas as suas propostas até à data não parecem abordar a mudança subjacente no poder. Ele ressalta a redução de impostos - que afirma promover uma nova onda de empreendedorismo – e a renegociação de acordos comerciais numa direcção proteccionista, para manter empregos na América. Mas essas políticas não deverão mudar o poder económico para aqueles que têm sido relativamente menos bem-sucedidos. Pelo contrário, os empreendedores podem desenvolver formas ainda mais inteligentes de substituir empregos por computadores e robôs, e o proteccionismo pode gerar represálias por parte dos parceiros comerciais, instabilidade política e, em última instância, até mesmo guerras quentes.

Para satisfazer os seus eleitores, Trump deve encontrar maneiras de redistribuir o poder sobre o rendimento (não apenas os rendimentos em si), e não apenas através dos impostos e dos gastos. Trump expressou apenas algumas ideias limitadas neste campo, como subsidiar a escolha da escola para melhorar a educação. Mas forças económicas poderosas, como a inovação tecnológica e menores custos de transporte a nível global têm sido os principais impulsionadores da crescente desigualdade em muitos países. Trump não pode mudar esse facto.

Se aqueles que não têm as competências que a economia de hoje exige, recusam a redistribuição, é difícil ver como Trump os pode ajudar. A revolução Trump, como foi apresentada até agora, não deverá resultar naquilo que os seus apoiantes realmente querem: um aumento do poder económico dos trabalhadores.

 

Robert J. Shiller, prémio Nobel da Economia em 2013 e professor de Economia na Universidade de Yale, é co-autor, com George Akerlof, de Phishing for Phools: The Economics of Manipulation and Deception.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
claudioseibert 04.12.2016

o sr donald trump poderá ter problemas em tentar explicar essa desigualdade de classes para os seus oponentes. certamente na espécie humana dar o peixe sem ensinar a pescar não tem nenhum valor probatório. o populismo se mostrou inapto em qualquer parte do planeta. valorizar a meritocracia é o certo