Lucy P. Marcus
Lucy P. Marcus 14 de agosto de 2017 às 14:00

Donald Trump, o CEO

Trump tem orgulho em ser empresário. Por isso, vamos tratá-lo como tal e como parte da empresa.

Suponhamos que o conselho de administração de uma empresa está à procura de um novo CEO. Depois de uma procura longa e agonizante, os seus membros decidem escolher um recém-chegado à indústria, alegando que o candidato vai fazer com que a empresa seja novamente líder de mercado. E, de facto, o novo CEO aparece com grandes planos, passando os primeiros seis meses a abolir e a castigar práticas e políticas passadas, por vezes sem rei nem roque.

 

O CEO contrata "yes men", talvez antigos colegas, amigos ou talvez mesmo familiares. Tendo pouca experiência, tal como o CEO, e muitos incentivos para obter favores, eles não dão bons conselhos. Mesmo que o fizessem, o CEO não teria em conta os seus conselhos. A acrescentar a isto há a falta de transparência, em conjunto com aparentes violações da ética empresarial e dos princípios básicos de liderança, e a credibilidade do CEO que rapidamente diminui.

 

Os executivos experientes e qualificados da empresa rapidamente ficam frustrados com a nova liderança e saem passado poucos meses. Estas saídas motivam um sentimento de medo e incerteza entre todas as pessoas, desde investidores a empregados, algo que é reforçado à medida que se torna claro que o CEO não está a cumprir as promessas feitas durante o processo de entrevistas.

 

Em seis meses, a empresa está uma confusão. Torna-se evidente que o CEO foi contratado com base em nada mais do que fanfarronice. Nessa altura, espera-se que a administração censure, senão despeça, o CEO falhado. Se não se moverem suficientemente rápido, há um amplo conjunto de delatores, sindicatos, advogados dos consumidores e outros que lhes vão dar o impulso necessário, servindo como um sistema de pesos e contrapesos.

 

Trump imagina-se como o CEO da América; de facto, ele venceu as eleições presidenciais por, em parte, ter-se apresentado como um magnata empresarial bem-sucedido. Por isso, ele deve ser avaliado pelo mesmo padrão que um CEO de uma multinacional pública – um padrão que está a aumentar, devido ao crescimento do escrutínio das práticas de governação nas empresas (apesar dos esforços de desregulamentação de Trump).

 

Embora, até agora, esse padrão não tenha sido aplicado. Nos primeiros seis meses enquanto presidente, Trump fez mais danos do que qualquer CEO poderia ter feito. Aparentemente, violou todas as normas do cargo. Enfrentou uma corrente constante de revelações escandalosas em relação aos laços com a Rússia do seu círculo mais próximo. E não alcançou grandes progressos legislativos.

 

De facto, parece que, todas as semanas, surge um novo desenvolvimento que, sozinho ou em conjunto com o resto, levaria ao despedimento de um CEO. Por exemplo, se qualquer CEO fosse para uma reunião mal-informado, como Trump vai frequentemente, a dar informações erróneas de forma descontraída, rapidamente teria perdido o apoio dentro da empresa e o respeito das pessoas de fora da companhia. Perguntem à Elizabeth Holmes, da Theranos, que tentou construir a sua empresa de testes ao sangue com base em conversa fiada e acabou por perder toda a credibilidade.

 

Nos negócios, ao imperador é rapidamente dita a verdade sobre as suas novas funções – a menos que seja um negócio familiar do género do que Trump gere e que frequentemente entra em falência. A administração Trump está em tal "negócio", o que significa que os seus funcionários seniores não têm alternativa que não seja demitirem-se face à fraca gestão (ou mesmo desafiadora da lei). O secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, foi o primeiro a atirar a toalha - depois de pouco mais de seis meses no cargo. Não vai ser o único.

 

Além disso, o clube dos antigos rapazes está a dar lugar a um ambiente de maior responsabilização nos negócios. No passado estão os dias em que um CEO podia desrespeitar as colegas mulheres com impunidade. Depois dos comentários terríveis que ele fez antes de se tornar presidente, recentemente Trump saiu impune dos insultos a uma jornalista irlandesa (interrompendo uma chamada com o primeiro-ministro da Irlanda para debater a aparência dela) e dos comentários sobre a esposa do presidente da França, cuja forma física comentou.

 

Tais comentários não são apenas profundamente inapropriados; demonstram também um fraco julgamento. No mundo dos negócios, um padrão como este seria notado e, eventualmente, a empresa seria obrigada a tomar uma medida. Se o CEO da American Apparel não conseguiu sair impune de tal assédio porque é que o presidente dos EUA pode?

 

Da mesma maneira, porque deve Trump brincar levianamente com a saúde e com o bem-estar das pessoas, tentando intimidar os seus próprios colegas no Congresso para que concordem com uma lei na área dos cuidados de saúde que iria tirar a cobertura a milhões? Quando Martin Shkreli, antigo CEO da Turing Pharmaceuticals, subiu o preço do medicamento para a toxoplasmose, o Daraprim – um tratamento que pode salvar a vida de pacientes com Sida –, de 13,50 dólares por embalagem para 750 dólares, a sua reputação caiu. Ele demitiu-se no rescaldo das alegações que de que se apropriou de fundos da empresa para uso pessoal em companhias em que havia trabalhado anteriormente. Shkreli passa agora muitos dos seus dias em tribunal.

 

Por outro lado, Trump continua seguro na sua posição de presidente, em parte devido à aparente lealdade sem fundamento de muitos dos seus apoiantes. Durante a campanha, proclamou que mesmo que estivesse no centro da Quinta Avenida, em Manhattan, e disparasse sobre uma pessoa, não perderia eleitores. E, por uma vez, aquilo que disse não foi uma mera fanfarronice: uma sondagem recente indica que 45% dos eleitores de Trump continuariam a apoiá-lo se ele disparasse sobre alguém.

 

Mas o índice de aprovação de Trump caiu substancialmente, atingindo mínimos que apenas dois presidentes antes dele tocaram nos primeiros seis meses no cargo. Isso significa que há um problema ainda mais fundamental: o sistema de pesos e contrapesos da América não funcionou da maneira que os Estados Unidos – e o resto do mundo – precisam.

 

A governação empresarial está a tornar-se mais rigorosa, dado o crescente reconhecimento por parte das empresas da responsabilidade que têm em assegurar ambientes empresariais seguros, proibir o trabalho infantil, evitar a destruição ambiental e colocar um fim a outras práticas prejudiciais. A governação política deve caminhar na mesma direcção.

 

Trump tem orgulho em ser empresário. Por isso, vamos tratá-lo como tal e como parte da empresa.

 

Lucy P. Marcus é a CEO da Marcus Venture Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
G. Sousa 15.08.2017

Uma nota sobre a tradução: "old boys’ club" traduz-se por "antigo clube de rapazes" (referência à cultura machista) e não por "clube de antigos rapazes" (expressão desprovida de sentido).