Fernando  Sobral
Fernando Sobral 18 de outubro de 2017 às 21:15

E agora, António?

Quando a política não sabe falar, não sabe decidir. O descrédito da política é o da palavra e da sua utilização sem critério e sem responsabilidade. Quando as palavras não comprometem quem as pronuncia, não podem convencer quem as escuta.

E, sem palavras, não há diálogo. Foi isto que separou Marcelo Rebelo de Sousa de António Costa. Marcelo fez o discurso que António Costa deveria ter feito. Mas este escolheu o Excel da estratégia política, um erro que, como o céu de Astérix, lhe caiu em cima. Como se deveria ter aprendido com o FMI, o Excel é muito bonito no papel, mas um país tem pessoas e sentimentos. Foi isso que António Costa não intuiu. O que não deixa de ser estranho, porque foi isso que fez toda a diferença do seu Governo face ao de Passos Coelho: ele trouxe esperança, enquanto o antigo primeiro-ministro só garantia austeridade e culpa. Não foi a catástrofe de Pedrógão Grande que mudou tudo. Foi o caos generalizado a que se assistiu no domingo que tudo transformou. António Costa não percebeu isso: o sentimento das pessoas alterou-se. Não foi dor: foi a revolta que sobrou de metade do país incinerado. Por isso, o seu discurso foi um erro: tinha de ter oferecido um horizonte em vez de impor um critério e umas medidas vagas à boleia de um relatório.

 

Portugal ficou farto da ambiguidade que substituiu a claridade. E da ocultação e confusão que pôs em causa a visão e a responsabilidade. Por isso, a situação tornou-se insuportável, como percebeu Marcelo. Daí ter dado prazos, ter indicado o caminho de saída a Constança Urbano de Sousa, ter colocado o Governo nas mãos do Parlamento. Agora António Costa tem de falar. Porque quem não fala perde-se no tempo. Esta é a época de rupturas. Tem de se avançar para a despartidarização da Protecção Civil, para a profissionalização dos bombeiros, para uma política de florestas e ambiente credível. Não há mais desculpas. É tempo de perceber que o OE, a dívida, o défice e o funcionalismo público não são o país. Este é feito de pessoas que têm sentimentos. António Costa ou percebe isso, ou não.

 

Grande repórter

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