Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 03 de Novembro de 2016 às 21:05

E agora: que soluções?

O resultado do referendo no Reino Unido foi surpreendente, mas existem razões históricas e acontecimentos passados que nos deveriam ter preparado para este desenlace.

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Houve casos em que referendos sobre temas europeus com votações desfavoráveis ao projeto europeu e o alargamento nem sempre foram pacíficos. Depois de cerca de sessenta anos de esforço de expansão da UE, prepara-se o primeiro abandono.

 

O Reino Unido, a par da Alemanha, foi uma das duas economias que melhor responderam ao desafio da globalização e que hoje está mais exposta aos mercados emergentes. Após anos de fraco desempenho económico, na década de 1980, a Grã-Bretanha encerrou a maioria das fábricas e orientou-se para serviços e para novas tecnologias de informação e comunicação. O mercado de trabalho foi reformado e o Estado Social repensado. A Germânia, igualmente no seguimento de vários anos de debilidade económica, na segunda metade da década de 90, reformou o mercado de trabalho e redesenhou o Estado Social. Mantendo as indústrias tradicionais, a competitividade aumentou, buscando dinamismo nos mercados emergentes.

 

Olhando para a Europa atual, constata-se que existe maior proximidade, em temas económicos, entre Reino Unido e Alemanha que entre Alemanha e França ou Itália, outros membros fundadores. Não é por acaso que a maior parte dos movimentos de migrantes se orienta para estes dois espaços económicos, que oferecem maior pujança e abertura económica num mundo globalizado. Contudo, de líderes de ambos os países ouvem-se declarações de preocupação com a abertura ao exterior. No Reino Unido, questiona-se a liberdade de movimentos de pessoas enquanto a Alemanha interroga-se sobre a livre circulação de capitais (e.g. aquisição de empresas europeias por capitais não europeus).

 

A saída do Reino Unido da União Europeia levanta interrogações sobre o futuro do maior centro financeiro da Europa e a possibilidade de sua deslocalização para Paris ou Frankfurt. E se a alternativa não for nenhuma cidade europeia, mas Nova Iorque ou Singapura? E não será a Grã-Bretanha capaz de manter a sua liderança da mesma forma que a Suíça tem sido a manter a sua unicidade financeira? Em termos de regulação, inovação, ensino, investigação, sistema judicial, entre outros, o Reino Unido é um importante referencial europeu.

 

Os desafios na UE são vastos e vacila a vontade política no sentido de maior integração. Com efeito, atualmente esta discussão entronca na resolução do binómio redução de risco vs. partilha de risco, sobretudo no que respeita a riscos financeiros e associados a serviço da dívida e ao controlo orçamental. Porém, respostas satisfatórias terão igualmente de ser encontradas para outros temas. Não se pode evoluir no sentido de maior integração política sem debater a solução militar/de defesa/de segurança desejável ou desejada para a Europa. Enquanto as guerras no Médio Oriente e no Norte de África mostraram uma frente europeia muito pouco unida, os ataques terroristas revelaram forte coesão interna, evidenciando as nuances que o projeto político europeu tem de dar resposta. Também carece de discussão o modelo de Segurança Social, seja no que respeita à proteção dos desempregados, seja no regime de pensões e seu financiamento.

 

O abandono do Reino Unido, para além de adiar esta discussão interna, tenderá a ampliar o debate sobre as vantagens políticas e económicas da UE, num momento em que os países do Leste Europeu parecem revelar um crescente ceticismo com o projeto europeu (veja-se os casos recentes da Hungria e Polónia).

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Francisco António Há 20 horas

Com a saída ou não saída do RU da UE, Londres continuará no mesmo sítio ! E dado o tradicional sentido de humor negro e gosto pela cerveja depois da caldeirada que Farage, Boris & Cª criaram...a coisa ficará na mesma. Claro que Bruxelas tem culpas no cartório sem esquecer o Barroso !

João Costa Há 1 dia

Interessante e bem escrito.

5640533 Há 1 dia

Sai o RU e ficamos nas mãos de Merkel e o próximo pateta francês.