Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de julho de 2017 às 19:28

É preciso mudar alguma coisa?

Há alguns que, dentro do PSD, percebem o dilema. Não há força suficiente para derrubar o líder inamovível. Mas outros sabem que o actual modelo de Governo poderá ter um prazo de vida superior a esta legislatura.

Poucos livros são tão eloquentes sobre as mutações políticas como "O Leopardo" de Tomasi de Lampedusa. A sua frase mais citada não é ditada pelo feudal Príncipe de Salina, mas pelo seu sobrinho arrivista, Tancredi. Este conta ao tio que vai participar do movimento revolucionário, e este replica que ele deveria ficar do lado do rei. Tancredi responde o seguinte: "Do lado do rei, com certeza, mas de que rei? (...) Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude." Afinal quem preserva o seu poder político (ou económico) só o consegue na medida em que se transforma. Parte da elite, que não muda, eclipsa-se. É esse o dilema que hoje corrói o trono de ferro que se ergueu à volta da liderança de Passos Coelho. A sua coesão cimentou-se à volta dos anos de chumbo da troika. Mas poucos entenderam estes anos da geringonça, como se tornou um hábito chamar ao pós-Passos. O líder do PSD foi um dos que congelou com a História, como se tivesse sido apanhado desprevenido na sua conquista do Pólo Norte. Passos Coelho tornou-se um castiço Capitão Iglo.

 

Há alguns que, dentro do PSD, percebem o dilema. Não há força suficiente para derrubar o líder inamovível. Mas outros sabem que o actual modelo de Governo poderá ter um prazo de vida superior a esta legislatura. Então, para quê, imolar o líder? É essa a grande força de Passos Coelho. Carlos Moedas, o nome por quem mais se espera na nova geração do PSD, tem tempo. Já Luís Montenegro não tem. E o seu momento pode ser abafado pela eterna esperança, Rui Rio, que pouco mais é do que a outra face da moeda que voou pelo ar e, quando caiu, deu Passos Coelho. É isso que o jovem novo líder da bancada do PSD, Hugo Soares, não entende quando diz inocentemente: "Em 2013 fomos copiosamente derrotados. E Passos continuou." É verdade. Mas eram outros tempos e havia um poder estável. Agora Passos voa em frequência modelada. Como se quisesse apenas um lugar no museu de Madame Tussauds. Não percebeu Tancredi.

 

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