Erna Solberg
Christine Lagarde
Erna Solberg | Christine Lagarde 08 de fevereiro de 2018 às 14:00

É tempo de deixar as mulheres prosperarem

Com a economia global a recuperar, os governos têm agora de criar as bases para um crescimento de longo prazo, criando condições para as mulheres, em todos os locais, tomarem consciência de todo o seu potencial. A discriminação e os abusos contra as mulheres não podem continuar a ser tolerados.

Capacitar as mulheres está a ser cada vez mais reconhecido como uma prioridade nos debates públicos realizados por todo o mundo. A questão de como se pode dar mais oportunidades económicas às mulheres esteve na agenda do encontro anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, este ano. E aqueles que há muito defendem as mulheres estão a sentir-se ainda mais motivados, com muitos outros – tanto homens como mulheres – a reconheceram a urgência dessa tarefa.

 

Dar às raparigas e mulheres a oportunidade de serem bem-sucedidas não é apenas a coisa certa a fazer; pode também transformar as sociedades e economias para o bem de todos. Por exemplo, se a participação das mulheres no mercado de trabalho estivesse no mesmo nível que a dos homens, isso impulsionaria o PIB até 9% no Japão e 27% na Índia.

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) documentou muitos outros benefícios macroeconómicos associados à capacitação das mulheres. Está demonstrado que reduzir diferenças de género no emprego e na educação ajuda as economias a diversificarem as suas exportações. Nomear mais mulheres para os conselhos de supervisão dos bancos pode evitar a formação de um pensamento de grupo único, o que assegurará uma maior estabilidade e resiliência no sector financeiro. Diminuir as desigualdades de género reduz também as desigualdades de rendimentos, permitindo um crescimento mais sustentável.

 

Diminuir as disparidades de género parece que é pedir muito mas é essencial para a prosperidade e desenvolvimento económico de longo prazo. Assim, o desafio para cada país é fazer o máximo com os talentos das suas populações.

 

Reconhecer o potencial das mulheres é uma missão universal. Mas algumas das barreiras que impedem o desenvolvimento são também universais. Surpreendentemente, quase 90% dos países têm uma ou mais restrições legais em vigor que estão baseadas no género. Em alguns países, as mulheres têm direitos de propriedade limitados comparativamente aos dos homens; em outros, os maridos têm o direito de proibirem as suas mulheres de trabalhar.

 

Além das barreiras legais, as mulheres enfrentam também obstáculos sociais e culturais que limitam o seu acesso à educação, trabalho e finanças. Isto é particularmente verdade em países com sistemas políticos frágeis.

 

Agora que há mais consciencialização pública, é tempo de avançar com medidas concretas para ajudar as mulheres a continuarem a trabalhar enquanto constituem família. Consideremos o caso da Noruega - onde os cuidados para as crianças são acessíveis e onde há provas de que as licenças parentais são bem-sucedidas no sentido de permitir que tanto as mães como os pais trabalhem - para termos uma ideia sobre como é que poderíamos alcançar isto. Sim, estes programas são dispendiosos. Mas valem o investimento, dado que as mulheres que trabalham dão um enorme contributo para o crescimento económico.

 

Além disso, os programas que ajudam as mulheres a manterem os seus postos de trabalho mudam também os papéis dos pais. Na Noruega, e em outros países com políticas semelhantes, os pais partilham agora por igual a licença parental e a criação dos filhos. Em resultado disso, mais mulheres podem procurar cargos de liderança nos seus trabalhos e na vida pública.

 

Os países que não têm ainda o nível de desenvolvimento económico que a Noruega tem, tipicamente enfrentam outros desafios relacionados com o género, incluindo um acesso limitado à água e à educação. Infelizmente, e apesar de muitos países terem feitos progressos na redução das disparidades de género nas matrículas na escola primária, há ainda muito trabalho que tem de ser feito no ensino secundário e no ensino superior. Se estas disparidades persistirem, as mulheres não vão ser capazes de aspirar a atingirem o mesmo poder económico e político que os homens. Assim, a Noruega determinou que a educação das meninas é uma prioridade nos seus programas de desenvolvimento internacionais.

 

Além da educação, assegurar que as mulheres dos países em desenvolvimento têm acesso a financiamento é fundamental porque isso permite-lhes participar totalmente na economia, incluindo como empreendedoras. Quando as mulheres têm capacidade para começarem os seus próprios negócios, podem impulsionar a inovação e ajudar os seus países a prosperar.

 

Dado que a participação das mulheres na força de trabalho é tão importante para o crescimento económico, organizações como o FMI estão empenhadas em trabalhar com governos por todo o mundo para capacitar as mulheres em termos económicos. Os programas apoiados pelo FMI para o Egipto e Jordânia, por exemplo, incluem medidas para impulsionar o investimento em creches públicas e em transportes públicos seguros.

 

A somar às políticas específicas, a conversa de hoje está focada na necessidade de uma mudança social mais ampla. E agora que movimentos como o #Equalpay e #MeToo ganharam destaque, parece que essa mudança pode estar a chegar. Tem sido inspirador ver tantas mulheres, raparigas, e – sim – homens a mostrarem-se contra atitudes retrógradas em relação às mulheres, atitudes que nos têm impedido a todos de avançar.

 

Com a economia global a recuperar, os governos têm agora de criar as bases para um crescimento de longo prazo, criando condições para as mulheres, em todos os locais, tomarem consciência de todo o seu potencial. A discriminação e os abusos contra as mulheres não podem continuar a ser tolerados. É tempo de as mulheres prosperarem.

 

Erna Solberg é primeira-ministra da Noruega e co-presidente do encontro anual, de 2018, do Fórum Económico Mundial. Christine Lagarde é directora-geral do Fundo Monetário Internacional e co-presidente do encontro anual, em 2018, do Fórum Económico Mundial.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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Alentejano Há 1 semana

como dito abaixo o feminismo é cancro que leva a iniquidades! Elas próprias me dizem como é trabalhar com mulheres a culpa é dos homens mas 1 mulher a trabalhar entre homens é feliz 1 mulher a trabalhar entre as mulheres é infeliz deve ser uma anormalidade que tem tendência a repercutir-se, sempre!

Alentejano Há 1 semana

2 dos melhores chefes que tive eram mulheres infelizmente caem mal neste artigo pois elas eram duríssimas com as outras mulheres! já falei com donas de empresas que só empregam mulheres nas caixas nunca para trabalho sério e sempre trela curta! O discurso faz sentido no 3º mundo não no Ocidente

Feminismo é origem da decadência da família e soci Há 2 semanas

Mal de nós todos, se o mundo fosse governado por mulheres, só mulheres.
Elas fazem falta, entre outras coisas, como um complemento indispensável do homem.

O feminismo sugere-me um cavalo com o freio nos dentes, q ninguém consegue parar e q, na sua deriva tresloucada, a nada obedece, nem ao dono.

Com homens, o ambiente é linear, leal e simples Há 2 semanas

A experiência ensina, à saciedade, que, onde as mulheres estão em maioria, as intrigas e o mau ambiente acabam sempre por aparecer, mais cedo ou mais tarde.
Por esse preciso motivo, é que a presença do homem é fundamental.
Quando há só mulheres, o ambiente é um saco de gatos.

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