João Costa Pinto
João Costa Pinto 02 de novembro de 2015 às 21:20

Economia e política - (LIX)

A manutenção de condições favoráveis de acesso ao financiamento acabará por se reflectir na atitude das agências de "rating" e levar a uma revisão em alta das notações de risco.

1. No último artigo referi que um programa de acção governativa, capaz de enfrentar os problemas e os bloqueamentos com que a nossa economia se debate, devia ser elaborado em torno de dois eixos: por um lado, preservar o acesso a fontes autónomas de financiamento e, por outro, induzir um movimento de crescimento económico sustentado, através da actuação sobre três vectores centrais - produtividade, competitividade externa e intermediação financeira.

 

Neste e em próximos artigos vou continuar a abordar estas questões que assumem uma importância particular na complexa e difícil conjuntura política que estamos a viver.

 

No que respeita ao primeiro eixo, importa começar por ter presente o contexto excepcional em que nos estamos actualmente a financiar. Apesar da incerteza política, a procura de dívida soberana mantém-se a taxas historicamente baixas. A explicação deve ser encontrada na convergência de um conjunto dificilmente repetível de factores: o primeiro é de natureza política. Tanto a Alemanha e o núcleo "duro" de países que a apoiam, como a própria Comissão, utilizam o "caso português" como contraponto ao grego, como defesa e justificação dos programas de ajustamento. Deste modo a evolução da nossa economia foi avaliada de forma muito favorável, com reflexos positivos sobre os mercados; o segundo tipo de factores decorre, quer da acção do BCE, quer do afluxo aos mercados financeiros de capitais provenientes das economias emergentes - em particular da China. Factores que estão assim a contribuir para um ambiente de mercado caracterizado pela manutenção de taxas de juro muito baixas. As taxas negativas com que algumas economias da Zona Euro se estão a financiar - a Itália acabou de colocar dívida a dois anos a taxas negativas - são o reflexo deste quadro, em que de novo assistimos a uma perigosa subalternização do risco.

 

2. Neste contexto, um governo que procure preservar o acesso autónomo ao financiamento - e deste modo evitar a "tutela" dos credores oficiais - deve colocar dois tipos de questões: vão manter-se, e por quanto tempo, as actuais condições de acesso aos mercados financeiros? Até onde pode ir a margem de actuação das políticas públicas, de modo a não induzir nos investidores expectativas negativas em relação à nossa dívida?

 

A resposta à primeira questão não é fácil. Alguns dos mais conhecidos analistas consideram que a coexistência de taxas de juro historicamente baixas e de baixo crescimento reflecte os problemas estruturais que condicionam algumas das principais economias - situação a que chamam "new normal" ou "secular stagnation". A própria Reserva Federal está hesitante em relação ao momento em que deve iniciar um movimento de subida das taxas de juro, dadas as incertezas quanto ao comportamento das economias norte-americana e mundial. Neste contexto, é de admitir que nos próximos anos se mantenha um quadro de taxas de juro baixas. Em particular na Zona Euro, o BCE prepara novas medidas, com que se propõe combater as persistentes pressões deflacionistas. Um eventual corte na já negativa taxa de remuneração dos depósitos mantidos pelos bancos junto do BCE, não deixará de exercer uma pressão adicional sobre as taxas de juro, nos mercados monetários e de capitais.

 

Quanto à segunda questão - margem de manobra das políticas públicas - a resposta é mais directa. Seria social e economicamente absurdo e politicamente suicida que um novo governo colocasse a nossa economia numa trajectória que a impedisse de beneficiar do actual ambiente de taxas de juro baixas, ficando de novo nas mãos dos credores oficiais. O caminho a percorrer é na verdade muito estreito. A fragilidade da nossa situação está reflectida na atitude das agências de "rating" que mantêm o nosso risco-país nos níveis pré-resgate, apesar das actuais condições de acesso aos mercados.

 

Neste contexto, permaneço convencido de que a resposta deve passar por "calibrar" a política orçamental, com um duplo objectivo: não pôr em causa, no essencial, a evolução orçamental acordada com Bruxelas e com os credores oficiais; ganhar tempo para "pôr de pé" um programa de médio prazo, dirigido ao segundo eixo que refiro no início deste artigo. Acresce que a manutenção de condições favoráveis de acesso ao financiamento acabará por se reflectir na atitude das agências de "rating" e levar a uma revisão em alta das notações de risco. Questão de grande importância, não só por contribuir para a consolidação das condições de acesso ao financiamento, como pelos seus reflexos positivos sobre o contexto em que os bancos portugueses estão a procurar redimensionar as suas operações e a recentrar os seus modelos de negócio.

 

Economista

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mais votado surpreso1 03.11.2015

Seja um governo de direita,ou a "troika" PS-BE-PCP? É óbvio ,que não

comentários mais recentes
surpreso1 03.11.2015

Seja um governo de direita,ou a "troika" PS-BE-PCP? É óbvio ,que não