Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 08 de fevereiro de 2017 às 20:07

Eleitores e protagonistas

Ao querer isolar-se do mundo, Trump destrói o padrão de equilíbrio mundial que os Estados Unidos estruturam.

A FRASE...

 

"Donald J. Trump é a esta altura o Presidente com os piores níveis de popularidade de que há registo, mas tem uma taxa de aprovação acima dos 80% entre o seu eleitorado. A América está partida ao meio e, em definitivo, o homem não deve ser subestimado."

 

Paulo Tavares, Diário de Notícias, 5 de Fevereiro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

As atenções estão concentradas em Trump, atraídas pelo espectáculo proporcionado por um átomo livre (estimulado por Stephen Kevin Bannon, 1953) que se dedica a destruir o que gerações de políticos competentes foram construindo. Mas será mais útil olhar para o eleitorado. Não são os protagonistas que estimulam o eleitorado, é o eleitorado que faz aparecer os protagonistas. O que estes protagonistas anómalos revelam é a divisão do eleitorado americano.

 

Esta divisão não é entre esquerda e direita, ou entre Partido Republicano e Partido Democrático. É uma divisão entre os de baixo e os de cima, entre o inferior e o superior, entre os pequenos e os grandes.

 

A análise política é estruturada em função de dois eixos, horizontal (direita e esquerda) e vertical (superior e inferior). A política tem quatro quadrantes e a importância de cada um é determinada pelo peso do eleitorado que se localiza em cada quadrante. As escolhas do eleitorado são motivadas pela observação do que tem sido a evolução recente da sociedade, sendo frequente sublinhar-se o agravamento das desigualdades. Porém, antes das desigualdades está o que as provoca - a assimetria das competências, sejam estas diferenças do valor que os mercados atribuem a essas competências ou distorções introduzidas pelos dispositivos corporativos de protecção de certos grupos sociais.

 

A nada disto a revolução conservadora de Trump sabe ou pode responder. Ao querer isolar-se do mundo, Trump destrói o padrão de equilíbrio mundial que os Estados Unidos estruturam. Mas terá de assumir o risco de fechar a sociedade americana numa guerra civil entre os de baixo e os de cima. Um século depois de uma revolução que se propunha mudar o mundo, verifica-se que o mundo mudou a revolução - o que foi tragédia reaparece como farsa.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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