Fernando  Sobral
Fernando Sobral 30 de julho de 2017 às 18:35

Elogio da inutilidade

Conta-se que, um dia, José Estaline, o pai dos povos como era então conhecido, ao saber que o seu filho Yakov tinha falhado a sua tentativa de suicídio, disse: "É tão inútil que nem sequer sabe matar-se."

A frase definia o autor. Mas, com esse delírio pouco paternal, ficamos a saber algo mais sobre a inutilidade. No meio desta montanha-russa de desgraças em que se transformou o nosso Verão, fica-se com uma ideia mais clara sobre a inutilidade de muitas das estruturas que compõem o nosso Estado. Veja-se só o que disse há dias o secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) sobre o roubo de armas em Tancos. Segundo Júlio Pereira, soube do furto pelo Serviço de Informações de Segurança (o SIS) que, por sua vez, tomou conhecimento do caso através da comunicação social. Ou seja, na manhã de 29 de Junho, os analistas do SIS viram a televisão e leram os jornais e, espantados, decidiram enviar, calcula-se num relatório sigiloso só para as altas esferas da comunidade de serviços de inteligência indígena, a notícia das armas que tinham desaparecido em Tancos. Alguém do SIS terá então informado o chefe do SIRP, por certo através de um telefone encriptado, do sucedido.

 

Poderia ser pior. O SIS poderia ter descoberto que tinha ocorrido um golpe de Estado em Portugal através dos jornais da manhã. Pelos vistos, a culpa foi do exército que não informou o SIS para este poder informar o SIRP e para que este pudesse dar conhecimento ao ministro da Defesa de que tinham sido surripiadas armas de Tancos. Se o SIS é um serviço de informações, temos razões para ficar descansados: a inutilidade é gloriosa. Podia ser mais humilhante. Em vez de saber o que se passava pela imprensa, o SIS poderia saber o que se tinha passado através das redes sociais. Ou de um telefonema de um amigo. É por isso, face a esta displicência e inutilidade, que se pode confiar plenamente em alguns serviços que orgulhosamente fazem parte do nosso sistema de segurança. Se alargarmos esta inutilidade a outros serviços, percebemos melhor o estado real do país.

 

Grande repórter

A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Ventura Santos 31.07.2017

Boa ! É por isso que estamos todos descansados. Não estou a ser irónico.

Anónimo 31.07.2017

A história é ainda mais macabra o filho de Stalin morreu numa prisão alemã 41. O pai não aceitou a troca dele pelo Field Marshal Friedrich von Paulus... Diz-se que nunca trocaria um soldado por um marechal de campo do inimigo. A guerra tem destas coisas e muito maiores atrocidades...

Mr.Tuga 31.07.2017

Espectacular.

pub