Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 16 de fevereiro de 2017 às 19:15

Elogios e elogios 

Ao querer motivar profissionais, deve de facto ser positivo; mas sobretudo deve ser-se ponderado e justo. Demais é demais e não ajuda.

Toda a gente gosta de ser elogiada. Sentimo-nos bem e a auto-estima, as ideias que temos sobre nós mesmos, melhora. Mas nem sempre Se, por um lado, não ouvir uma palavra de reconhecimento é tantas vezes penoso e desmotivador, por outro lado, ouvir um elogio exagerado pode fazer ainda pior.

 

Os elogios desproporcionais podem baixar a auto-estima das crianças, mostra um estudo publicado na revista Psychologial Science. Dizer "perfeito", "és o melhor", quando a criança sabe de outros desempenhos iguais ou melhores, é contraproducente. Geralmente a criança pode nem perceber o que se passa, mas o desincentivo a não fazer, a não tentar e a não conseguir pode ser o que fica. E os elogios exagerados podem ser especialmente prejudiciais quando a auto-estima da criança é baixa. A criança, ou o adolescente, ou mesmo o jovem ou o não tão jovem profissional, ouve o elogio exagerado, e vê o pai, a mãe ou quem o elogiou a querer puxá-lo para cima, a exagerar... E pensa, porquê? Porque, suspeita, há razões para isso... e as coisas pioram. Ou então, não. A pessoa alvo do elogio pode mesmo acreditar que correu muito bem, e que o elogio exagerado tem sentido, mas… mas sabe que o extraordinário, extraordinário é, não é o usual e que por isso não é de esperar que consiga outra vez os mesmos resultados. A consequência disto é a criança, o jovem ou o profissional evitar novos desafios, resguardar-se e fechar-se. E como se este quadro já não fosse suficientemente complicado, as pessoas, em geral, tendem a exagerar os elogios precisamente a quem tem uma auto-estima mais baixa.

 

O que é então um elogio exagerado? A investigação que citámos acima sugere que é o acentuar de uma afirmação positiva. Por exemplo, "bem feito", "bom empenho", "bem conseguido", são bons elogios; em princípio eficazes junto de crianças com baixa ou alta auto-estima. Mas "bem feito, incrível!", ou "óptimo trabalho, perfeito!", "és sensacional!", "és um talento", ou "és o melhor!", cuidado… podem ser elogios exagerados e fazer mais mal do que bem. É contra-intuitivo, não é fácil e depende do contexto e de pessoa para pessoa, mas é um padrão comum. Por isso, ao querer ajudar crianças a ganhar confiança, tranquilidade e a subirem a auto-estima, ao querer apoiar jovens, ao querer motivar profissionais, deve de facto ser positivo; mas sobretudo deve ser-se ponderado e justo. Demais é demais e não ajuda.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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