Fernando  Sobral
Fernando Sobral 02 de Janeiro de 2017 às 09:45

Em busca da ilha dos Amores

Não é necessário esfregar os olhos com muita força para perceber que Portugal foi conquistado pela comodidade.

Não é necessário esfregar os olhos com muita força para perceber que Portugal foi conquistado pela comodidade. Que o conceito de imprevisibilidade foi afastado da bolsa de valores por falta de compradores. Que a austeridade (muito mais do que um remédio para finanças doentes) foi um desnivelador social, que destruiu uma teia comunitária onde os portugueses iam sobrevivendo. Tornou também hegemónica uma cultura de mediocridade onde todos se proíbem de crer em algo diferente dos demais.

Tudo se tornou uma mercadoria, até as emoções e as ideias. Estas são causas de decadência, como diria Antero de Quental. Miguel de Unamuno dizia que: "É de suicidas o povo de Portugal, talvez seja um povo suicida". Mas, claramente, exagerava.

Os portugueses nem sempre se renderam mas Portugal, excepto nalguns períodos gloriosos da sua História, poucas vezes foi uma sociedade de risco. Acomoda-se, com facilidade, ao amparo dos poderes que a controlam. Há, nisto tudo, a sensação que estes últimos anos tiveram um efeito soporífero na sociedade portuguesa. O que tem sobrado então? Lutar contra o défice, limitar a dívida, não entrar em muitos conflitos com a Europa que passa os cheques, criar uma aparente paz social que o actual Governo veste como a camisola de um clube de futebol.

Que crenças movem os portugueses? G. K. Chesterton dizia que se deixarmos de acreditar em Deus passamos a acreditar em tudo. Poderíamos partir daí para um outro axioma: se deixarmos de temer a Deus teremos medo de tudo. Esse medo existe e muito dele foi trazido pelas novas regras da globalização. Esta é uma sociedade insegura (e não é por causa dos terroristas). Sabe-se que a ideia de globalização paralisou, durante os últimos anos, a vontade política em todo o mundo. Por isso vemos esta revolta das massas contra as elites que têm governado o mundo. Sobretudo porque o valor do trabalho tem-se tornado insignificante. E sem classes médias a democracia liberal caminha para o suicídio.

Portugal vive num limbo. E continuará a vivê-lo em 2017. Não conseguimos, como aspirava Camões, ser deuses no lugar destes na ilha dos Amores.

Há ilhas de excelência em Portugal e elas, acredito, podem ser a faísca capaz de transformar a mentalidade que se tornou reinante no chamado país dos brandos costumes. 


É preciso deixar de ter medo


Portugal vive num limbo. E continuará a vivê-lo em 2017. Não conseguimos, como aspirava Camões, ser deuses no lugar destes na ilha dos Amores. Regressámos da glória para um rectângulo que nunca deixou de ser pobre apesar das riquezas incalculáveis que vieram das Índias e do Brasil. Por isso Portugal foi sempre uma nação de pedir.

Com a mão estendida em busca de crédito: e não é por acaso que a palavra crédito deriva da mesma herança latina que denota o acreditar religioso.

Há ilhas de excelência em Portugal e elas, acredito, podem ser a faísca capaz de transformar a mentalidade que se tornou reinante no país dos chamados brandos costumes. Há empreendedores, trabalhadores, artistas que acreditam na criação e na agitação. São eles que farão um novo Portugal. Peter Pan recusava crescer. Portugal tem de deixar de ter medo de o fazer. Para ultrapassar esta democracia micro-ondas onde tudo parece ser pré-feito antes de um descongelamento rápido e que nos traz um prato sem sabor. Antes que os ventos da revolta aqui cheguem, sempre no comboio de Paris com as novidades, como acontecia no tempo de Eça de Queiroz. Em 1903, Bernardino Machado dizia que: "Os governados não respeitam nem estimam quase nunca os governantes, e ao despotismo de cima, respondem com a má vontade e a rebelião de baixo". Às vezes sente-se que nada mudou. Mas este é um pessimismo esperançado. Ainda acredito que 2017 poderá ser um ano de mudança de paradigmas entre nós. E que ainda é possível descobrirmos a nossa ilha dos Amores.

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