Fernando  Sobral
Fernando Sobral 21 de março de 2017 às 00:01

Em busca do Japão

Numa altura em que o Japão busca o seu lugar na Ásia e no mundo, tentando encontrar novas alianças, é bom pensar que Portugal poderia olhar para esta oportunidade.

No Japão, os jardins são considerados locais de sabedoria. E eles representam o elo mais forte entre o homem e a natureza, entre o homem e os deuses. O xintoísmo é o caminho rumo aos deuses, o que também nos ajuda a perceber o lugar dos seres no universo. É esta cultura secular que se cruza com a da manga, por exemplo, que faz parte do fascínio que sentimos pelo Japão. E que, no caso português, tão bem transparece na escrita de Wenceslau de Moraes. São longas (mas nem sempre lineares) as relações de Portugal com o Japão: tem sido mais um jogo de escondidas onde nem sempre os dois países se encontram. Lamentavelmente, até porque é conhecido o fascínio dos japoneses pela História portuguesa e o interesse dos portugueses pela surpreendente sociedade japonesa. Há um longo caminho a percorrer, mas num momento em que o Japão volta a procurar um lugar determinante na Ásia e no mundo, haveria espaço para um novo salto em frente nas relações entre os dois países. A pouco clara política para a Ásia de Trump, a ameaça da Coreia do Norte e o crescente poder da China são desafios muito claros para o Japão. Que tem vindo a diversificar alianças (como se viu com a recente visita do rei saudita Salman a Tóquio, ou a aposta do Japão em África). Este é um bom tempo para Portugal também estreitar relações com um país que está no nosso imaginário.

 

Muitas vezes tem-se a noção de que o Japão (que conhecemos muito por causa da tecnologia de ponta) esteve fechado ao mundo durante muito tempo. Não é verdade. Antes da abertura ao Ocidente no século XIX, o Japão já tinha entrado num período de "revolução industrial", que respondeu aos desafios colocados pelas potências ocidentais. O Japão de Edo (1603-1867) tinha fábricas, comércio inter-regional forte, espectáculos populares como o teatro Kabuki e o Sumo, grandes editoras de livros. Na época Meiji (1868-1912) reformou as instituições para criar as bases de um Estado-nação moderno. A liderança tecnológica no século XX teve a ver com isso. Mas a globalização liderada pela América no século XXI colocou em xeque este poder. A ultrapassagem da sua economia pela chinesa foi um choque. Perante o desafio chinês, o Japão sabe que a sua aliança regional com a Coreia do Sul é frágil e a relação com a Rússia está contaminada pelo diferente das ilhas do Norte. É neste contexto que uma aproximação entre Portugal e o Japão seria mais do que desejável.

 

Médio Oriente: Síria entre os objectivos de Israel e do Irão

 

O exército israelita atacou nos últimos dias diversos alvos na Síria, causando retaliação com mísseis terra-ar por parte das tropas de Bashar al-Assad. Foram os mais sérios incidentes desde o início da guerra civil síria em 2011 e foi mais notória porque a acção israelita foi feita uma semana depois da visita de Benjamin Natanyahu a Moscovo para discutir, entre outras coisas, o envolvimento do Irão na Síria. Há muito que Israel tem expressado preocupação com a presença dos Guardas da Revolução iranianos na região, ao lado das forças do Hezbollah e das tropas curdas locais. E, Israel nunca o escondeu, desde o início da guerra que o seu principal objectivo é conter a influência iraniana na região. No entanto, a visita de Netanyahu ao Kremlin tinha na bagagem questões muito pertinentes: a informação de que o Irão está a pensar ter uma base militar permanente em Latakia; uma unidade do Hezbollah libanês foi criada para libertar os Montes Golã da ocupação de Israel.

 

 

Com o envolvimento da Rússia na região (e a aliança que força com o Irão para manter Bashar al-Assad no poder), o encontro de Natanyahu com Vladimir Putin levanta muitas questões. Até agora tem havido um acordo táctico entre os dois países na questão síria, tentando evitar qualquer confronto. Basta dizer que a Rússia nunca se manifestou sobre ataques de Israel ao Hezbollah. Mas, no que toca à influência do Irão sobre Assad, parece haver limites à capacidade dos russos para deterem isso. Nas negociações de paz em Astana, na semana passada, o Irão comprometeu-se a ser uma garantia de acordo, ao lado da Rússia e da Turquia. Mas é aqui que os interesses da Rússia e de Israel acabam por entrar em confronto: Moscovo não terá uma tarefa fácil para afastar Teerão da Síria. Por outro lado, se forçar a tensão nos Montes Golã, o Irão poderá levar Israel a atacar, o que daria uma machadada na relação cordial entre Telavive e os países sunitas árabes.

 

Egipto: visita do Papa

 

O Papa Francisco vai visitar o Egipto no próximo mês, numa continuação da estratégia de promover as relações entre católicos e muçulmanos. O convite para a visita foi feito pelo Presidente egípcio al-Sisi, pelo líder da igreja copta de Alexandria e pelo imã da mesquita de Al Azhar. Cerca de 10% da população egípcia é cristã, a maioria ortodoxos coptas. A maioria da população é sunita. Algumas vezes tem-se assistido a conflitos violentos entre diferentes comunidades religiosas. Há um ano, Francisco encontrou-se com o grande imã de Al Azhar no Vaticano.

 

Macau: aumenta taxa de redesconto

 

A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) aumentou a sua taxa de redesconto em um quarto de ponto percentual para 1,25%. A taxa de redesconto é a taxa de juros que o banco central, ou neste caso a autoridade monetária, cobra para emprestar dinheiro a bancos comerciais, funcionando como emprestador de última instância. A decisão foi justificada pelo facto de a Autoridade Monetária de Hong Kong ter decidido aumentar igualmente em 25 pontos base a sua taxa de referência, tomada pelo facto de o dólar de Hong Kong estar indexado ao dólar dos Estados Unidos. A Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu na semana passada aumentar em 25 pontos base a taxa de juro de referência para o intervalo compreendido entre 0,75% e 1,0%.

 

China/EUA: Jinping com Tillerson

O Presidente chinês Xi Jinping e o secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson encontraram-se em Pequim, não mostrando as suas divergências em público, entre elas as relativas à Coreia do Norte, que entretanto mostrou um novo míssil. Trata-se do primeiro encontro entre figuras cimeiras da administração Trump com Jinping. Não ficaram evidentes as discussões sobre uma possível "guerra comercial" ou as críticas de Washington à presença forte chinesa nos mares da China. Tillerson pareceu adoptar uma posição mais diplomática do que a de Trump que, na semana passada, disse que a China fez "pouco" para resolver a questão da Coreia do Norte. 

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