Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 12 de dezembro de 2017 às 19:54

Em defesa da hipocrisia

O estado judaico - uma solução imposta por lei, hoje com fronteiras frágeis, porosas e duvidosas - é ele próprio uma forma (boa) de "hipocrisia", que só à conta da (boa) "hipocrisia" internacional tem sobrevivido.

A hipocrisia tem péssimo nome. Mas ela é como o colesterol: há a boa hipocrisia e a má hipocrisia. Donald Trump desbaratou a primeira e abusou da segunda, na sua decisão de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, e de para lá mudar a embaixada dos Estados Unidos, actualmente em Telavive.

 

Os apoiantes da decisão celebram precisamente o fim de uma hipocrisia. Ela existe, sim. Jerusalém não é só a capital simbólica e prometida de Israel: Jerusalém é, de facto, a capital de Israel. É lá a residência oficial do Presidente da República e do primeiro-ministro, a sede do Governo e dos ministérios, da Universidade Hebraica e do Banco de Israel; é lá que funcionam o Parlamento e o Supremo Tribunal, o Museu de Israel e a Biblioteca Nacional. A soberania de Israel foi sempre exercida a partir de Jerusalém.

 

Na verdade, a decisão dos Estados Unidos, que já foi tomada em 1995, tem tido o apoio generalizado dos políticos americanos. Em 2008, na conferência da AIPAC (o lóbi americano pró-Israel), o então candidato Barack Obama foi claro: "Qualquer acordo com o povo palestiniano deve preservar a identidade de Israel enquanto estado judaico, com fronteiras seguras, reconhecidas e defensáveis, e Jerusalém deve manter-se a capital indivisível de Israel." No entanto, também em 1995, os Estados Unidos aprovaram uma espécie de moratória, de seis meses, até começarem a concretizar aquela decisão. Essa moratória tem sido prorrogada desde então. Sim, tudo isto é uma hipocrisia.

 

E depois há ainda a hipocrisia suprema: a ideia de que o conflito israelo-palestiniano é insolúvel porque ambos os lados têm razão. Não é verdade: ambos os lados têm razões de queixa, mas não contem comigo para estabelecer um paralelo perfeito entre a luta pela sobrevivência do estado de Israel, uma democracia liberal reconhecida pela comunidade internacional, e o anti-semitismo das forças políticas dos territórios e países seus vizinhos, cuja política oficial é ainda hoje a aniquilação do povo e do estado judaicos.

 

Ora, é exactamente por causa do perigo existencial que Israel enfrenta que convém assegurar a contenção e moderação dos seus inimigos. O estado judaico - uma solução imposta por lei, hoje com fronteiras frágeis, porosas e duvidosas - é ele próprio uma forma (boa) de "hipocrisia", que só à conta da (boa) "hipocrisia" internacional tem sobrevivido. É esta "hipocrisia" que tem mantido viva a ideia de que é possível a coexistência de dois estados e a partilha de Jerusalém, a única solução plausível para uma paz duradoura. A "hipocrisia" é aqui uma forma de defesa, prudência e pragmatismo. É o que separa a civilização da barbárie, a diplomacia da guerra e a validade de um determinado princípio da sua destruição às mãos da ideia infantil de que qualquer princípio pode a todo o momento ser concretizado integralmente.

 

Trump e os seus apoiantes dizem que só agora, com esta decisão, estão reunidas as condições para um novo e frutuoso processo de paz. Qual? Como? Ninguém explicou. Porque o que o Presidente quis foi só alegrar a sua base eleitoral e desviar as atenções dos muitos escândalos que o afectam. É a hipocrisia oportunista dos pequenos merceeiros políticos. Quanto aos seus apoiantes, estes estão convencidos de que só haverá paz entre judeus e palestinianos quando uma das partes subjugar definitivamente a outra. Talvez tenham razão, tragicamente. Mas enquanto não assumirem o que pensam escusam de criticar a hipocrisia dos outros.

 

Advogado

 

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