José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 24 de Outubro de 2016 às 19:20

Em direção a Churchill

O meu desconforto maior surge quando tento perceber o que poderá acontecer quando vier a próxima recessão. Será possível manter níveis de emprego que evitem a desagregação social do país?

A FRASE...

"The era of procrastination, of half-measures, of soothing and baffling expedients, of delays is coming to its close. In its place we are entering a period of consequences."

Winston Churchill

A ANÁLISE...

Do Orçamento já tudo se disse, a não ser da sua irrelevância perante os desafios com que Portugal se depara. Independentemente do mérito da orientação que enforma o Orçamento, as medidas propostas são de alcance ínfimo quando comparado com a escala das debilidades do nosso aparelho produtivo e com a pobreza da nossa população face ao padrão europeu. A expressão da impotência do principal instrumento de política económica revela-se na vacuidade do próprio exercício: reforça-se aqui, agrava-se ali, mitiga-se acolá, num jogo de soma nula ou marginal. O Orçamento não muda a nossa realidade, eterniza-a. A conjugação das limitações financeiras com as restrições políticas assim o determina. Se nos falha o BCE ou a benevolência de uma agência de "rating" (DBRS), o caos é garantido. O Orçamento não compromete, mas também não melhora, esse estado de dependência externa. Neste quadro, o melhor que nos pode acontecer é nada, nem de bom, nem de mau, ainda que para tal tenhamos de continuar a conseguir fintar os riscos que se vão aglomerando no nosso horizonte. O meu desconforto maior surge quando tento perceber o que poderá acontecer quando vier a próxima recessão. Será possível manter níveis de emprego que evitem a desagregação social do país? Terá o Estado recursos para cumprir as suas funções sociais básicas num momento que será de aflição?

Não cuidar de transformar radicalmente o modelo de crescimento que nos tem vindo a falir desde o início do século corresponde, ainda que por omissão, a procrastinar, a usar expedientes paliativos e, em última análise, imergir num mar de consequências. Obrigado pelo aviso, Sir Winston.

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
5640533 Há 1 semana

Excelente artigo.

Julio Há 1 semana

Crescimento para quê? Os que vivem bem (e são muitos) não querem mudar, nem crescimento, e os que estão mal e precisam de crescimento não têm poder para mudar. O Reino Unido, com o governo do Churchill, era uma miséria.