Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 04 de janeiro de 2018 às 20:42

Em Portugal não há assédio sexual

O silêncio relativo com que acolhemos os casos revelados com estrondo lá fora ilustra o quanto ainda temos que andar para subverter uma cultura de abuso, exercido tipicamente sobre as mulheres.

A presidente da câmara baixa do Parlamento italiano, Laura Boldrini, discursou há cerca de um mês sobre a importância que o caso de Harvey Weinstein teve para o reconhecimento um pouco por todo o mundo ocidental de um problema claro de assédio sexual. Um pouco por todo o mundo com uma excepção, notou com ironia: "Em Itália não teve o mesmo efeito - no nosso país não há quem cometa assédio." Se Boldrini seguisse a realidade portuguesa, saberia que há pelo menos outro país onde o assunto foi recebido com silêncio: Portugal.

 

Por aqui houve um ou outro artigo na imprensa sobre o assunto, um Prós e Contras com o título "Basta, dizem elas!" (eles pelos vistos não dizem nada), comunicados de associações e grupos feministas e, do que vi, pouco mais. O assunto nunca marcou verdadeiramente a agenda. Dos media à política, passando pela sociedade civil, o tema foi tratado mais como uma coisa que está a acontecer lá fora - os casos mediáticos nos EUA, a campanha global #metoo, o contágio à Europa - do que como um problema doméstico.

 

E este é um problema profundamente enraizado no país. O inquérito "Assédio Sexual e Moral no Local de Trabalho", do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género e citado esta semana no Negócios, indicou, em 2016, que 14,4% das mulheres inquiridas e 8,6% dos homens foram alvo de assédio sexual. Para quem está atento ao que se passa à sua volta, estes valores são baixos. São raras as mulheres com quem falei sobre o assunto - a maioria jornalistas, todas com grau de instrução e emancipação elevado - que não têm pelo menos uma história de assédio ou de conduta imprópria para contar: convites constrangedores do chefe para um fim-de-semana a dois, tentativas de beijos por um entrevistado, raid surpresa a uma joalharia para o chefe oferecer uma jóia, partilha de sonhos eróticos envolvendo a interlocutora, etc.

 

O silêncio das mulheres e dos homens sobre algo que conhecem bem aqui e que está a ser exposto com estrondo lá fora tem várias justificações. O país é pequeno, o mercado de trabalho é ainda mais pequeno e as pessoas têm medo de perder o emprego ao exporem algo que é difícil de provar - até porque, numa sociedade patriarcal, nem a cultura nem a justiça tendem a premiar essa exposição, antes pelo contrário. Em Itália, onde a cultura é semelhante, a actriz Asia Argento, uma das que falou publicamente contra Weinstein e outros, foi trucidada na praça pública - aqui, a apresentadora Cristina Ferreira foi alvo de muitas críticas quando expôs o seu caso, sem mencionar nomes. A maior parte dos empregadores são PME e microempresas, o que dificulta mais a acção por parte de pessoas que não são actrizes ou jornalistas com acesso fácil aos media (sendo que mesmo estas são fortemente desincentivadas a exporem o seu caso).

 

Em Portugal tem havido evolução na legislação, no tratamento público da violência doméstica e, mais recentemente, no escrutínio das decisões judiciais envolvendo essa mesma violência. São boas notícias para todos, homens e mulheres. Mas o silêncio sobre o assédio sexual é bem revelador da força da cultura institucional e social que legitima este tipo de tratamento, sobretudo das mulheres - e revelador do quanto ainda há que andar para subverter este estado de coisas. Quem mete este combate dentro do rótulo da "ditadura do politicamente correcto" ou não quer ver a realidade ou, simplesmente, não quer mudá-la.

 

Jornalista da revista Sábado

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surpreso Há 2 semanas

Aqui elas gostam mesmo,ó Bruno!

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