Jorge Marrão
Jorge Marrão 23 de abril de 2012 às 23:30

Enclausurados – uma economia sem preços

A economia portuguesa não tem preços formados na livre concorrência na saúde, educação e transportes públicos. Proliferam os preços políticos.
A economia portuguesa não tem preços formados na livre concorrência na saúde, educação e transportes públicos. Proliferam os preços políticos. No imaginário mais fértil dos portugueses, e dos políticos da palavra fácil, também os produtos agrícolas, a energia, as portagens, as rendas de habitação, e tudo aquilo que pode influenciar o nosso quotidiano deveria ter preços baixos. Caminhamos também para a administração estatal de crédito e taxas de juro. E protestamos ainda pelos baixos salários.

Fixemos então tudo por portaria: salários e preços. E porque não? Se o preço for baixo, quem pagaria os salários dos trabalhadores e capitais investidos nessas actividades? Deixem-me adivinhar Um novo modelo económico nasce: a economia parlamentar, mediática e administrativamente correcta. Aquela que responde às preferências do eleitorado do momento e às sensibilidades mediáticas. Acolhemos sem pestanejar todo este status quo de desmesuras económicas.

Reproduzem-se irreflectidamente as ideias da geração que nos libertou. Esta, por não querer desdizer-se, está-nos a enclausurar. Não quer assistir ao desmoronar do sonho por impossibilidade real. Dificilmente se difundem as ideias daqueles como Diogo Quintela (ver Público de 22 de Abril de 2012) que querem conhecer o reformado que o vai escravizar, preferindo propalar que a Segurança Social está garantida até 2030!

Confundimos o desejo com a realidade, quando reclamamos a administração de preços para aliviar o sofrimento dos mais desfavorecidos, e para segurarmos política e economicamente a classe média. A intenção é benevolente e moralmente irrepreensível. Responde ao imediatismo desta geração de políticos viciados e dependentes dos media. Mas, deixa tudo na mesma e uma dívida futura maior.

As economias socialistas de raiz marxista afundaram-se em parte pela ausência de preços. Recorda-me a célebre pergunta do Presidente da Câmara de Moscovo ao Mayor de Londres depois da abertura do Leste: – como é que fazes a distribuição do pão e administras os seus preços? Atónito, o Mayor respondeu-lhe: – não tenho nada que ver com isso. O moscovita descrente: - e como são geridas as falhas e os excessos no abastecimento? O mercado faz esses ajustamentos. Um mundo distinto de experiências separava-os; naturalmente uma incompreensão recíproca.

Debatemos e agimos como se tivéssemos as falhas notórias de um capitalismo concorrencial. Confundimos a nossa circunstância com a alheia. Mal gatinhamos na globalização de mercados, e já discutimos os problemas como se fossemos grandes corredores.

Esquecemos que os serviços artificialmente gratuitos e os custos baixos do crédito nos levaram à ilusão da riqueza e a esta desgraça colectiva. Preferimos a máxima popular: enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Iludimos sempre a pobreza deste rectângulo: com o ouro do Brasil, os recursos das colónias, o aforro dos emigrantes e ultimamente com as poupanças mundiais e políticas de coesão europeias. Ganhámos uma nova ilusão: as exportações, sem querer mudar nada na economia que as sustentam.

Até termos resultados, não toleramos preços elevados. Alguém que suporte os custos excessivos. Preferimos mendigar empréstimos à troika, assistência financeira e falsas solidariedades. Atiramos as consequências para os eleitores e trabalhadores alemães e europeus, e a dívida para futuras gerações.

A Europa não está isenta de responsabilidades nas alternativas que nos oferece para a saída da crise. Mas, não confundamos o doente com o médico. A ligação economia e política requer uma nova cura. Um ilustre amigo disse-me: os economistas não dizem o que sabem, e dizem o que não sabem. O tempo das quimeras tem de chegar ao fim a bem do nosso futuro colectivo.

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