Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 08 de fevereiro de 2018 às 21:50

Enfrentar o passado

A produtividade é um fator determinante para o crescimento económico associado à qualidade dos fatores de produção. Em Portugal, a qualidade da força de trabalho pontua como debilidade competitiva.

Contudo, o quadro geral está a alterar-se, permitindo acreditar num reposicionamento competitivo da economia nacional e a concretização de níveis de crescimento económico mais dinâmicos.

 

Estudos recentes apontam para o decréscimo do peso de adultos (com idade compreendida entre 15 e 64 anos) com baixa escolaridade de 74% para 53% entre 2004 e 2016, enquanto as percentagens de adultos com formação média e superior aumentaram de 16% para 26% e de 11% para 22%, respetivamente. Deste modo, o diferencial de qualificação face à área do euro encurtou significativamente (-10 pontos percentuais - p.p.), embora permaneça em patamares elevados (23%).

 

As entradas no mercado de trabalho de participantes com baixas qualificações encontram-se em linha com o registo europeu, sendo Portugal um dos países da OCDE com maior progresso relativamente à escolaridade intergeracional. Adicionalmente, um dos flagelos da educação foi revertido: a taxa de abandono escolar caiu de 40% para 14% entre 2004 e 2016. Entretanto, o número de licenciados aumentou 9%, com acréscimo de 70% dos diplomas em cursos científicos e tecnológicos. Considerando os indicadores PISA (que avaliam as competências dos estudantes em várias áreas académicas) de 2015, constata-se que Portugal se encontra acima da média da OCDE em todos os domínios, revelando consistência na melhoria ao longo dos anos. Assim, estima-se que o peso de baixas qualificações na força de trabalho caia de 53% em 2016 para 42% em 2026. Não só se expandiu o número de adultos mais qualificados, como se observaram progressos assinaláveis em termos de qualidade.

 

O jugo do pesado legado da baixa qualificação tem vindo a ser aliviado. Destaque-se a participação em atividades de aprendizagem ao longo da vida ter aumentado cerca de 20 p.p. na década terminada em 2016 (passou de 30,9% para 50,2%, segundo o INE). Este acréscimo resultou essencialmente da participação em educação não formal relacionada com a atividade profissional. Os mais jovens (18 a 24 anos), mais escolarizados (72,6% da população com ensino superior), e os profissionais mais qualificados (76,1%) são, no entanto, os maiores participantes nestas ações. Porém, os maiores aumentos, no que concerne o nível de escolaridade, registaram-se nos patamares mais baixos (incremento de 19,9 p.p. para a população sem nenhum grau de escolaridade completo).

 

A persistência de queda do peso dos profissionais com baixas qualificações, baixando mais 10 p.p. ao longo da próxima década (estima-se), poderá implicar acréscimo do PIB potencial em dez anos de 7%, favorecendo padrões de crescimento económico sustentadamente superiores ao verificado na década passada. Este resultado poderá ser ainda impulsionado por via do incremento do número de mulheres licenciadas e dos efeitos secundários em termos de progresso intergeracional da educação. Evidência empírica confirma uma forte relação entre o ensino superior da mãe e o ensino superior dos seus descendentes, a qual se tem vindo a robustecer na última década.

 

O único desenvolvimento menos positivo refere-se ao facto de, embora os prémios salariais associados à escolaridade continuem positivamente correlacionados com o nível de ensino e um licenciado auferir um prémio salarial de 136% face ao nível salarial de trabalhadores sem qualquer nível de ensino completo, no ensino superior, em 2016, o prémio salarial situava-se abaixo do registado em 2007, em contracorrente com o observado nos restantes níveis de escolaridade.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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