Nuno Garoupa
Enorme falta de bom senso
26 Abril 2012, 00:01 por Nuno Garoupa
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Mais que a ausência de grandes estadistas (porque os grandes estadistas são sempre os do passado), o que faz imenso confusão na vida pública de hoje em dia é uma enorme falta de bom senso.
Mais que a ausência de grandes estadistas (porque os grandes estadistas são sempre os do passado), o que faz imenso confusão na vida pública de hoje em dia é uma enorme falta de bom senso.

Que o Governo enfrentava uma conjuntura muito complicada e necessitava de fazer reformas estruturais impopulares era mais que sabido desde a hora zero. Mas o Governo tinha a vida facilitada; bastava ser sério e claro, bastava ser diferente da política de inverdade e trapalhada dos seis anos anteriores para ter um apoio largamente maioritário na sociedade portuguesa. Mas não. Desde as múltiplas nomeações políticas às medidas avulsas de austeridade depois de anunciar o fim da crise, a derrapagem orçamental que todos adivinhamos, mas continuamente negada pelo Governo, a improvisão constante, e o mais que provável segundo resgate (a queda da Espanha seria a desculpa ideal para ilibar o Governo de responsabilidades). Cheira tudo a mais do mesmo. Um pouco de sentido comum e o Governo teria a compreensão de muitos. Mas a falta de bom senso levou ao crescente isolamento do Governo que já perdeu a cumplicidade da sua base eleitoral. O seguro de Passos Coelho neste momento é Seguro, porque a sua maioria já era.

A credibilidade do Tribunal Constitucional anda desde há anos pelas ruas da amargura. É verdade que não tem pior nome que as restantes instituições políticas e judiciárias portuguesas, mas está muito longe do pedestal quase venerado em que estão, por exemplo, o Supremo Tribunal norte-americano ou o Tribunal Constitucional alemão. Nomeação após nomeação, os dois principais partidos têm sistematicamente arruinado a imagem do dito tribunal. Tinham agora uma possibilidade de emendar a mão, mudar de vida como tanto gostam de dizer quer o líder da maioria, quer o líder da oposição. Mas não. Decidiram, uma vez mais, sujeitar-se aos interesses imediatos da política em detrimento das instituições. Uma falta de bom senso que afunda um pouco mais o moribundo Estado de direito vigente.

O Rei de Espanha anda nisto há quarenta anos. O seu país está submergido na mais grave crise económica e social desde a Guerra Civil. A Família Real está a braços com um genro bandido que fez mais pela República que qualquer republicano nos últimos trinta anos. E decide ir para uma caçada de elefantes no Botswana. Mas desapareceu o bom senso na Casa Real? Pelo menos, diga-se em abono da verdade, que não negou o erro e pediu desculpa ao povo espanhol sem paliativos (coisa que as nossas elites políticas nunca fazem).

O Governo argentino para disfarçar uma incapacidade gritante de fazer seja o que for regressou ao peronismo radical, o mesmo que levou a Argentina do primeiro mundo (o único país da América Latina que alguma vez esteve entre os mais ricos do mundo) ao buraco onde anda metida há cinquenta anos. Dizem que é o novo socialismo; esse mesmo peronismo radical que foi fascismo nos seus primórdios. Os argentinos querem continuar nessa miséria económica em vez de seguir os exemplos de sucesso como o Brasil, o Chile ou a Colômbia. Outra completa falta de bom senso.



Professor de Direito da University of Illinois
nuno.garoupa@gmail.com
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