Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 02 de janeiro de 2017 às 11:15

Entre Trump e o BCE valha-nos o milagre de Fátima

Entre a incógnita de Trump no mundo e os efeitos dos juros e da política do BCE em Portugal, assim se tecerá o novo ano.

Diz  a teoria do caos que o bater de asas de uma borboleta na China pode provocar uma tempestade na América. Já em Janeiro teremos em Washington a tomada de posse de Donald Trump, que marcará certamente o novo ano. Provavelmente o efeito do milionário  que ficou famoso na televisão dos reality shows será maior do que o voo da mariposa, é talvez mais adequado comparar com o impacto de um paquiderme.

A proteção comercial que Trump prometeu aos americanos é uma ameaça às exportações chinesas e hoje se a China arrefece o mundo também se constipa.

E na Europa 2017 é o ano da digestão do Brexit e de eleições decisivas para todo o continente em França e na Alemanha.

Para nós que vivemos num pequeno país, com estado sobreendividado, economia anémica e tão dependente do exterior, 2017 é um ano de desafios.

Além da ameaça de subida de petróleo, há a tendência de subida dos juros. A América vai manter a tendência de subida e mais tarde ou mais cedo, é natural que o BCE acompanhe a tendência, até porque o dólar alto associado aos preços do crude provoca algumas tensões inflacionistas. O dinheiro mais caro irá pressionar as finanças públicas. Mas pior para Portugal é a alteração de política do BCE, que pode travar a fundo a compra de títulos de dívida portuguesa a partir do próximo verão.

Sem o guarda-chuva de Frankfurt nos mercados aproxima-se a tempestade sobre a dívida pública portuguesa. O país que continuou a agravar o endividamento depois do resgate de 2001 e que em 20017 irá precisar por semana quase 500 milhões de dinheiro nos mercados financeiros, vai enfrentar algumas tempestades.

A proteção comercial que Trump prometeu aos americanos é uma ameaça às exportações chinesas e hoje se a China arrefece o mundo também se constipa.

Com os ciclos políticos cada vez mais acelerados e a economia a ser decisiva, 2017 vai mesmo ser determinado pela conjugação entre taxas de juro e a política do Banco Central Europeu.

Com a pressão dos credores na frente externa, o Governo vai ser continuar ouvir de Bruxelas a necessidade de medidas adicionais. António Costa e Mário Centeno até podem fazer um brilharete com o défice de 2016, mas não é suficiente.

O Governo fez tudo para ficar bem na fotografia das contas públicas em 2016, além dos milhões da campanha de marketing do perdão fiscal com o nome de Peres, empurrou despesas para o próximo ano a adiou a capitalização da Caixa Geral de Depósitos, que pode não contar para a avaliação do défice, mas é um enorme esforço.

Se e economia europeia e mundial não arrefecer, a tendência de valorização do dólar, que caminha para a paridade com o euro,  é uma oportunidade para as empresas exportadoras nacionais.

Também se o petróleo não subir para níveis proibitivos, Portugal continuará a acolher a invasão crescente de turistas. O Algarve poderá bater de novo em 2017 a marca de melhor verão de sempre e Lisboa e Porto durante todo o ano continuarão a receber milhares de turistas, beneficiando do fenómeno das low cost.

O turismo tem todas as perspectivas de continuar a ser o sector mais dinâmico da economia portuguesa. O maior reside nas flutuações do preço do petróleo, porque os bilhetes baratos de avião é que têm sustentado o crescimento exponencial do negócio.

Depois do verão há um exame político decisivo, não só ao governo e aos partidos que o apoiam, como à oposição.

Se o PS ganhar Costa conta com uma alavanca importante, mas o PCP também tem os seus bastiões em causa e curiosamente nos municípios comunistas o maior adversário costuma ser o Partido Socialista.

Visto de Dezembro de 2016, o PSD tem uma tarefa hercúlea. Tem poucas hipóteses de conquistar grandes municípios aos socialistas. Lisboa e Porto são bicos de obra. Resta-lhe lutar espingardas por todo o país para tentar ficar bem na fotografia nessa decisiva noite leitoral.

Mas com os ciclos políticos cada vez mais acelerados e a economia a ser decisiva, 2017 vai ser mesmo determinado pela conjugação entre taxas de juro e política do Banco Central Europeu. O diabo pode mesmo chegar, mas oxalá isso não aconteça no ano do centenário das aparições de Fátima. Num país que acredita em milagres, bem precisamos de um novo que acelere a economia e reduza a dívida pública.

A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
carlos.moreira.904750 Há 2 semanas

Fazer prognósticos de um tempo que não é nosso é impossível mas as 2 bases do autor são essenciais: a entrada de novas políticas da Administração Trump e os Juros e apoios do BCE a partir do 2º trimestre de 2017. Nessa altura poderemos reanalisar as "reversões" e reavaliar o empurrão de barriga dos governantes Costa/ Centeno e acompanhantes parlamentares de tudo o que seria essencial e não foi feito. Destruir o que fora dificil de recuperar depois da era de Socrates é fácil e... dá milhões de votos que Costa pretende capitalizar para o seu partido. Pode ser que tenha tempo ainda de ganhar as Autárquicas por muitos ...mas cada vez que ganhar será "poucochinho" para as "dores que vai ter de parir". Basta que o BCE suspenda parte dos apoios que nos tem dado, para Portugal ter de sair do Euro ( desiderato dos 3 partidos acompanhantes da esquerda parlamentar e portanto grande e folgada vitória da "grande e forte maioria parlamentar" que suporta este primeiro ministro. Desejamos isso?

Alvaro Natividade Há 2 semanas

Qual milagre de Fátima? Houve algum?

Francisco Carvalho Há 2 semanas

E nós o que fazemos ??? Esperamos....que nos ajudem ???