Michael Spence
Michael Spence 26 de Outubro de 2016 às 19:35

Escapar à nova normalidade de crescimento débil

Os políticos preferem, simplesmente, manter o fardo das políticas monetárias e evitar a implementação de políticas difíceis ou impopulares

Não há dúvidas de que a recuperação da recessão global desencadeada pela crise financeira de 2008 tem sido invulgarmente morosa e anémica. Alguns continuam à espera de uma retoma do crescimento. Mas, oito anos após a erupção da crise, aquilo que a economia global está a viver começa a parecer mais um novo equilíbrio de baixo crescimento do que uma recuperação lenta. Por que é que isto está a acontecer e há alguma coisa que possamos fazer acerca disto?

 

Uma potencial explicação para este "nova normalidade", que tem recebido muita atenção, passa pelo declínio do crescimento da produtividade. Mas, apesar da considerável quantidade de dados e análises, o papel da produtividade na actual doença tem sido difícil de definir – e, na verdade, parece não ter a importância que muitos pensam.

 

Claro que o abrandamento do crescimento produtivo não é bom para o desempenho económico no longo prazo, e esta pode ser uma das forças que tem atrasado os Estados Unidos à medida que se aproximam do "pleno" emprego. Mas, em grande parte do resto do mundo, outros factores – nomeadamente uma procura agregada inadequada e as significativas brechas de produção, enraizadas no excesso de capacidade e activos subutilizados (incluindo pessoas) – parece mais importante.

 

Na Zona Euro, por exemplo, a procura agregada em muitos países-membros tem sido limitada por, entre outras coisas, os grandes excedentes da balança corrente da Alemanha, que ascendeu a 8,5% do PIB em 2015. Com procura agregada mais elevada e uma utilização mais eficiente do capital humano e outros recursos, as economias poderiam beneficiar de um impulso significativo de crescimento no médio prazo, mesmo sem ganhos de produtividade.   

 

Nada disto significa que devemos ignorar o desafio da produtividade. Mas a verdade é que a produtividade não é, nesta altura, o principal problema económico.

 

Enfrentar os problemas mais urgentes com que a economia mundial se depara vai requerer acção de múltiplos actores – não apenas dos bancos centrais. Mesmo assim, até agora, as autoridades monetárias suportaram boa parte do peso da resposta à crise. Em primeiro lugar, intervieram para prevenir o colapso do sistema financeiro e, depois, para deter as crises das dívidas soberanas e da banca, na Europa. Depois continuaram a reduzir taxas de juros e a curva de rendibilidade, elevando os preços dos activos, o que impulsionou a procura através dos efeitos da riqueza.

 

Mas esta abordagem, apesar de ter produzido coisas boas, seguiu o seu caminho. Taxas de juro muito baixas – ou mesmo negativas – falharam em restaurar níveis de procura agregada ou estimular o investimento. E o canal de transmissão da taxa de câmbio não trará muitos efeitos positivos uma vez que não aumenta a procura agregada; apenas altera a dinâmica da procura entre os países com sectores transaccionáveis. A inflação ajudaria, mas mesmo as mais expansionistas políticas monetárias têm sentido dificuldades em elevar a inflação para as metas definidas, sendo o Japão um exemplo perfeito. Uma razão para isto passa pela procura agregada inadequada.

 

Nunca se devia ter esperado que, por si só, as políticas monetárias pudessem orientar as economias para uma trajectória sustentável de elevado crescimento. E, de facto, não puderam: a política monetária dirigiu-se explicitamente para comprar tempo para as famílias, o sector financeiro, e para que os países soberanos pudessem reequilibrar os seus balanços e ainda para abrir caminho ao surgimento de políticas potenciadoras de crescimento.

 

Desafortunadamente, os governos não chegaram suficientemente perto do necessário na prossecução de respostas estruturais e medidas orçamentais complementares. Uma razão é que as autoridades orçamentais em muitos países – em particular no Japão e em partes da Europa – estiveram limitadas por elevados níveis de dívida pública. Além disso, numa conjuntura de baixas taxas de juro estes países podem viver sobreendividados.

 

Para governos altamente endividados, baixas taxas de juro são críticas para manter os níveis sustentáveis de dívida e para aliviar a pressão em torno da necessidade de reestruturação de dívidas e recapitalização de bancos. A mudança para um equilíbrio de elevada dívida tornaria impossível alcançar equilíbrio orçamental. Na Zona Euro, o compromisso do Banco Central Europeu (BCE), anunciado em 2012, em prevenir os níveis de dívida de se tornarem insustentáveis, é politicamente condicionado à adopção de restrições orçamentais.

 

Há também motivações políticas em jogo. Os políticos preferem, simplesmente, manter o fardo das políticas monetárias e evitar a implementação de políticas difíceis ou impopulares – incluindo reformas estruturais, reestruturação da dívida e a recapitalização de bancos – direccionadas a impulsionar a flexibilidade e o acesso aos mercados, mesmo que isso signifique penalizar o crescimento no médio prazo.

 

O resultado é que as economias estão presas ao assim chamado equilíbrio de Nash, segundo o qual nenhum participante pode retirar ganhos de acções unilaterais. Se a tentativa dos bancos centrais de abandonarem as suas políticas agressivamente acomodatícias sem acções complementares para a reestruturação da dívida ou restabelecimento da procura, do crescimento e do investimento, o crescimento vai sofrer – assim como a credibilidade dos bancos centrais, ou mesmo a sua independência.

 

Porém estas instituições têm de abandonar estas políticas, porque as políticas monetárias expansionistas atingiram o ponto a partir do qual poderão estar a fazer mais mal do que bem. Ao suprimir o retorno dos aforradores e detentores de activos por um longo período de tempo, as baixas taxas de juros provocaram uma procura frenética por rentabilidade.

 

Esta procura assume duas formas. Uma passa pelo crescimento da alavancagem, que aumentou globalmente em cerca de 70 biliões de dólares desde 2008, em grande medida (apesar de não inteiramente) na China. A outra é a volatilidades dos fluxos de capitais, que tem levado os legisladores de alguns países a perseguirem a sua própria flexibilização monetária ou a impor controlo de capitais por forma a prevenir danos no crescimento do sector transaccionável.

 

É passado o tempo para os líderes políticos mostrarem maior coragem na implementação de reformas estruturais, incluindo na Segurança Social, que poderão travar o crescimento por um determinado período de tempo mas que irão estabilizar a posição orçamental dos seus países. De uma forma geral, as autoridades orçamentais têm que realizar um trabalho muito melhor de cooperação com as suas contrapartes monetárias, doméstica e internacionalmente.

 

Tal posição irá, provavelmente, ter de esperar até que as consequências políticas do fraco crescimento, elevada desigualdade, falta de confiança no comércio internacional e investimento, e a perda de independência dos bancos centrais sejam de demasiado graves para aguentar. O que provavelmente não acontecerá para já, mas, tendo em conta o crescente surgimento de líderes populistas, apoiados nestas tendências adversas, poderá já não estar assim tão distante.

 

Neste sentido o populismo poderá ser uma força benéfica, na medida em que desafia um problemático "status quo". Mas o risco continua a ser o de que, se chegados ao poder, os líderes populistas adoptem políticas que levarão a ainda piores resultados.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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