Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 13 de fevereiro de 2018 às 22:03

Escritor negro norte-americano

Em Portugal, a mesma atitude racista é reproduzida quando alguns querem proibir os outros de utilizar a expressão "escritor negro norte-americano" apagando um traço importante da identidade do escritor tão ou mais importante que a sua nacionalidade.

Alguns leitores indignaram-se com a expressão "escritor negro norte-americano" que usei no artigo da semana passada para identificar Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer de 2017 e autor do aclamado romance "Estrada Subterrânea", um livro sobre a escravização de pessoas negras nos Estados Unidos e a sua resistência a essa opressão. Alguns vão ao ponto de propor que tais expressões sejam banidas dos órgãos de comunicação social.

 

Admito que a indignação não diga respeita à descrição de Whitehead como "escritor" uma vez que se trata de um consagrado romancista com várias obras de grande qualidade publicadas nem a "norte-americano" uma vez que tendo nascido em Nova Iorque é por lei cidadão desse país. Resta então como foco de polémica a palavra "negro" ou em inglês "black" para identificar este excecional escritor norte-americano.

 

Porque se revoltam então estas, felizmente poucas, almas? Uns porque não acham relevante chamar a atenção para esse facto, procurando com isso dar a entender aos incultos que talvez seja "branco". Outros porque pensam que assim se poderia "desvalorizar" o escritor como se os negros não pudessem ser intelectuais de primeiro plano. Outros porque pensam que a tradução para português de "black" seria outra, essa sim ofensiva no português de Portugal. Note-se que o movimento mais dinâmico e mais influentes em Portugal na luta contra o racismo e pela afirmação dos afro-portugueses se denomina exatamente Movimento da Consciência Negra.

 

Todas estas razões radicam do racismo à portuguesa, isto é, do esconder dos problemas, do não aceitar que existem raças sociais (raças biológicas não existem, mas existem raças sociais, isto é, grupos que pelas suas características fisiológicas e/ou culturais são segregados e discriminados), procurando dessa forma impedir o pleno reconhecimento e a igualdade de todos num país multicultural e multirracial.

 

Desconhecem que no Brasil se celebra o dia da Consciência Negra, um dia de grande relevância para a maioria da população desse país.

 

Não compreendem que para a identidade de muitos a sua raça social é da maior importância. Gostariam de proibir prestigiadas associações como o Committe of Balck Writers da Writers Guild of American West, o poderoso sindicato dos escritores norte-americanos, ou a novel Black Publishers & Writers Association (Associação dos Autores e Editores Negros) ou em Portugal o Movimento da Consciência Negra.

 

Colson Whitehead descreve em entrevista ao jornal inglês The Guardian como, apesar de os pais serem empresários bem-sucedidos, os colegas tinham dificuldade em imaginar um afro-americano abastado e pensavam que ele era um príncipe africano (https://www.theguardian.com/books/2017/jul/07/colson-whitehead-underground-railroad).

 

Em Portugal, a mesma atitude racista é reproduzida quando alguns querem proibir os outros de utilizar a expressão "escritor negro norte-americano" apagando um traço importante da identidade do escritor tão ou mais importante que a sua nacionalidade.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo Há 1 semana

O autor deste artigo ainda não percebeu que está a ser racista.
Um escritor, um piloto, um filósofo, um cientista, um motorista... quero lá saber da cor da pele dele, ou se é gay, ou se é vegetariano. O que quero é saber da pessoa. Não existe necessidade de categorizá-las.

comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 1 semana

As virgens pudicas HIPOCRITAS do costume....

Sceptic Há 1 semana

Afinal o escritor, < whitehead> e` preto mas tem a cabeca branca; por isso e` tao inteligente.

Anónimo Há 1 semana

O autor deste artigo ainda não percebeu que está a ser racista.
Um escritor, um piloto, um filósofo, um cientista, um motorista... quero lá saber da cor da pele dele, ou se é gay, ou se é vegetariano. O que quero é saber da pessoa. Não existe necessidade de categorizá-las.