João Silva Lopes
João Silva Lopes 06 de junho de 2017 às 21:05

Esta cidade não é para os de fora

Sem metro, autocarro ou comboio, resta o automóvel, mas aí o executivo camarário fechou ainda mais as muralhas da cidade, privilegiando exclusivamente quem lá mora.

A afirmação do ministro do Ambiente de "que as cidades não podem continuar a ser desenhadas a pensar nos automóveis, que acabam por estar parados cerca de 92% do tempo", é tão evidente como a de que isso só é possível quando se criarem as condições mínimas para quem mora fora das cidades poder deslocar-se em transportes públicos. 

 

Durante o mandato do actual executivo camarário, assistiu-se à transformação de Lisboa num "gueto" de difícil acesso para quem lá não mora ou não é turista.

 

E isso foi feito em total articulação com o Governo que não cuidou de criar as condições para que Lisboa se tornasse numa metrópole com uma rede de transportes públicos ligada aos concelhos limítrofes, através de sucessivas decisões de cariz estritamente político nas empresas de transportes públicos.

 

Na Carris, a atribuição da titularidade administrativa do serviço público de transporte de passageiros exclusivamente ao município de Lisboa não garante uma visão integrada dos serviços que assegure a ligação aos concelhos limítrofes.

 

No Metro, foi anunciada a expansão da rede com as novas estações de Santos e Estrela até ao final 2021, também sem qualquer tipo de referência a possíveis ligações aos concelhos limítrofes.

 

Na CP, a Linha de Cascais, que funciona numa tensão eléctrica diferente da utilizada nas restantes linhas do país, não será objecto, por opção política, de qualquer intervenção significativa de reabilitação e melhoramento de que gritantemente necessita.

 

Sem metro, autocarro ou comboio, resta o automóvel, mas aí o executivo camarário fechou ainda mais as muralhas da cidade, privilegiando exclusivamente quem lá mora (peões e ciclistas), não criando as mínimas condições para quem trabalha, mas não vive, em Lisboa.

 

Ou seja, ao mesmo tempo que não se promoveram as interligações do metro, autocarro e comboio, dificultou-se, ainda mais, o acesso e a deslocação através de automóvel!

 

Temos assim uma cidade que ficará para os que já lá vivem (maioritariamente idosos), para os que têm condições de pagar o "prémio" do metro quadrado altamente inflacionado e para os turistas. Jovens, classe média e trabalhadores não são bem-vindos à cidade. Lisboa corre assim o risco de se transformar num dormitório a que só os turistas têm acesso.

 

Só uma rede de transportes públicos eficientemente integrada nos concelhos de Cascais, Oeiras, Sintra, Amadora, Loures e Odivelas permitirá que Lisboa se assuma como uma cidade moderna, promotora de uma mobilidade urbana sustentável alicerçada nos transportes colectivos.

 

O regresso da Carris à esfera da administração central ou a criação de uma estrutura intermunicipal para a sua gestão, um plano a médio prazo de extensão do metro aos concelhos limítrofes e a reabilitação e modernização da Linha de Cascais devem ser propostas a discutir, sem receios, na campanha eleitoral autárquica que se avizinha.

 

Mesmo os candidatos sabendo que quem vota é quem mora em Lisboa e não quem vem de fora...

 

Advogado

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comentários mais recentes
Ze 07.06.2017

Se as pessoas têm que vir de fora porquê manter os serviços no centro de Lisboa?

Anónimo 07.06.2017

O trânsito está ridiculamente caótico, obras praticamente concluídas que vieram criar afunilamentos em várias artérias da cidade, mas atenção que também houve redução de lugares de estacionamento para os moradores! Obras para "inglês ver"!

Mr.Tuga 07.06.2017

Certo!

As cidades de tugaLândia e os ALLgarves são o PARAISO para TUSRISTAS, mumias paraliticas REFORMADOS do norte da Europa, agiotas dos VISTOS GOLD!
Um INFERNO para os tugas pagantes de taxas, taxinhas e impostos!
VERGONHA de politiqueiros de trampa sem visao....