Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 14 de setembro de 2017 às 19:45

Está mesmo tudo ligado no Marquês

A investigação da Operação Marquês vai englobar na acusação os casos do BES e da PT. Os dois homens mais poderosos e influentes de Portugal nos anos que precederam o resgate da troika vão sentar-se no banco dos réus. E o julgamento pode revelar como funcionava verdadeiramente o poder.

A acusação do processo Marquês que será conhecida dentro de poucas semanas promete ser um libelo contra anos trágicos do regime democrático, os anos do pré-resgate, em que um primeiro-ministro com maioria absoluta que mandava em tudo, e em conluio com o homem mais influente do mundo económico, empobreceu o país, ganhando em troca luvas astronómicas.

Sócrates não foi certamente o primeiro governante corrupto na democracia portuguesa, mas pelos dados disponíveis nesta investigação foi o político que levou a cobrança de comissões a uma dimensão estratosférica . Poucos governantes e alguns autarcas poderão ter ganho alguns milhões de euros em negócios corruptos, prejudicando o Estado e os contribuintes. Muito poucos terão chegado à casa das dezenas de milhões. Mas Sócrates, que já tinha deixado rasto na Cova da Beira e só escapou impune nos milhões do Freeport por perfeita inépcia da investigação, ou por condicionamento de magistrados que se vergaram à influência do então poderoso governante, elevou o patamar da corrupção e do enriquecimento ilícito para um nível que só é conhecido na alta corrupção da América Latina ou dos ditadores africanos dos   países ricos em petróleo.

 

Aliás, o padrão de Sócrates é muito idêntico ao esquema de corrupção detectado na sequência da operação Lava Jato no Brasil. Não será por coincidência que a Operação Marquês acaba por ser gémea da Lava Jato. É que o ruinoso casamento da PT com a Oi, a operadora brasileira que tinha como accionistas de referência o chamado telegangue, é um dos negócios sob escrutínio da Operação Marquês.

 

Nas escutas da justiça, quer da Operação Marquês quer do Monte Branco, está demonstrado que Ricardo Espírito Santo Salgado era o verdadeiro patrão da PT. Sendo accionista de referência, mas longe de ser maioritário, Salgado usava a PT como vaca leiteira de recursos para o BES e GES e punha e dispunha nas decisões estratégicas. Os gestores principescamente remunerados e respeitados na sociedade portuguesa não passavam de feitores do patrão.

 

Sócrates e Ricardo Salgado tiveram todo o poder entre 2005 e início de 2011, apesar de em 2009 o chefe de governo ter perdido a maioria absoluta. Foi o resgate externo que acabou com este tandem. Na Primavera de 2011, Salgado tirou o tapete ao seu aliado. Mas o antigo dono disto tudo acabou por sucumbir, porque deixou de contar com o conforto político do qual sempre dependeu.

 

Saldo Positivo: António Costa

A margem orçamental não é muita. Mas António Costa pode fazer a quadratura do círculo com a mudança dos escalões de IRS, beneficiando as pessoas com menos rendimentos. Com alguns milhões de euros alivia o IRS para muitos contribuintes e deixa centenas de milhares de fora da pressão do imposto directo sobre o rendimento. É uma medida que garante a satisfação de milhões de eleitores. O actual Governo demonstra que sabe como conquistar votos com o orçamento.

 

Saldo Negativo: Tony carreira

Num país tão pouco exigente em gostos musicais, Tony Carreira é o rei da música que o povo gosta. Mas a acusação do Ministério Público ao compositor expõe um dos segredos do sucesso deste antigo emigrante. O cantor limitou-se a plagiar fórmulas de sucesso. Algumas cópias são tão óbvias que chega a ser inacreditável que tenha assumido a autoria. Esta acção do Ministério Público é importante porque reforça os direitos dos legítimos autores.

 

Algo completamente diferente

Na democracia portuguesa havia uma norma de bom senso que obrigava à alteração do calendário de futebol nos dias das eleições. Em regra, a jornada era antecipada. Entretanto, com o alargamento dos calendários e o aumento de compromissos internacionais, começaram a escassear datas e este ano no dia das eleições autárquicas volta a haver futebol. E um dos desafios, antes de fecharem as urnas, é logo um Sporting-Porto. Não será por isso que a abstenção sobe, mas o bom senso levaria os senhores do futebol a encontrar outras soluções.

 

Jornalista de Economia

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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comentários mais recentes
fcj 14.09.2017

Quer dizer: O roubo de milhares de milhões ficaria incólume, não fosse o caso da justiça direitola