David Bernardo
David Bernardo 27 de novembro de 2017 às 20:20

Esta notícia é falsa!

Propõe-se que as redes sociais devem ser controladas. Estou de acordo, da mesma forma que se devem responsabilizar os meios tradicionais e, também todas as pessoas que publicam. Por exemplo, através de leis contra a difamação que realmente funcionem.

O Web Summit deste ano foi novamente um êxito com muitos temas relevantes, sendo um dos mais controversos o das notícias falsas. Entre os vários casos, muitas pessoas estavam escandalizadas pelo facto de Donald Trump ter ganho as eleições apoiado por notícias falsas, aparentemente promovidas pelos russos. É novidade para alguém que os políticos mentem e as campanhas são realidades paralelas?

 

A manipulação dos media não é sequer recente. A questão é saber quem é o melhor manipulador. Mais casos recentes? A independência da Catalunha e o Brexit. Televisões a interferirem nos destinos da banca portuguesa?

 

Mais grave ainda, preocupa-me que as redes sociais sejam os novos tribunais, diria mesmo os novos carrascos. Qualquer situação enquadrada corretamente comove as pessoas e junta de imediato milhões de ativistas. Vejam todos os casos de abuso sexual que saíram à luz nos últimos meses na indústria de cinema norte-americana. Até aqui tudo bem, o problema é que não se averiguam os factos e não se dá seguimento (passamos para o novo caso do dia sem levar às últimas consequências o anterior). Estas pessoas devem ser julgadas, e quando consideradas culpadas cumprir as sentenças, mas isso cabe ao sistema de justiça, não às redes sociais. E se for o caso de acusações falsas, que as pessoas que levantaram essas acusações sejam punidas igualmente, porque também nunca foi tão fácil arruinar a vida e a reputação de alguém sem qualquer tipo de consequências. 

 

O mundo dos media mudou, o "driver" continua a ser o mesmo, receitas de publicidade. Mas antes a publicidade era mais cara e os meios de comunicação eram menos. Como consequência, atualmente há menos receitas e menos lucros, logo menos salários e menos formação. As notícias eram, quando muito, diárias. Hoje em dia, 10 minutos depois já são velhas, e isso não vende publicidade. Jornalistas menos preparados e sem tempo para confirmar a veracidade originam informação de menor qualidade. 

 

Por outro lado, há a democratização do acesso à publicação de informação, a qual pode ser boa ou má. Qualquer um pode aceder a milhões (não tão fácil como se julga ou todos o fariam). A queixa é que as notícias são falsas, ou que os mesmos de sempre já não o conseguem fazer como faziam? Por algum motivo os media são o quarto poder.

 

O sistema não funciona, mas nunca funcionou, e agora ainda por cima mudou. E quando muda há um período de adaptação. A última invenção são filtros nas redes sociais (humanos e digitais) que começam a ser implementados no Facebook, por exemplo. Será uma boa ideia? Queixamo-nos dos poderes destas empresas, mas estamos a dar-lhes o poder para decidir o que é correto ou verdadeiro? Historicamente, a isto chama-se censura e os resultados não foram positivos.

 

Propõe-se que as redes sociais devem ser controladas. Estou de acordo, da mesma forma que se devem responsabilizar os meios tradicionais e, também todas as pessoas que publicam. Por exemplo, através de leis contra a difamação que realmente funcionem.

 

É um tema importante que a sociedade deve analisar e agir. A solução passa muito pela educação, ensinar as pessoas a recolher e filtrar a informação, e a pensar por elas próprias (o que também não é conveniente a todos). Os mesmos legisladores têm de entender em profundidade o que se está a passar, ou as leis vão sair ao lado.

 

"Estou em desacordo contigo, mas vou lutar até à morte pelo teu direito de dizê-lo", Voltaire (na realidade é de Evelyn Hall, mas a quem é que isso importa!).

 

Partner litsebusiness.com e professor de e-commerce e marketing digital na Nova SBE

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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Santa ingenuidade Há 1 semana

David reclama para a UE ou vai ta pro caralho. Cabe ao consumidor triar, não gostas da liberdade de expressão? Vai para a China. Ciao