Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 28 de julho de 2017 às 00:01

Estado em colapso na tragédia das chamas

Em Portugal, o país real só é notícia pelas piores razões. O interior abandonado e desleixado pelos poderes públicos arde, revelando a falência da protecção civil. A presença do Estado é cada vez mais dispersa e a população, cada vez mais envelhecida, é abandonada à sua sorte.  

As imagens que as televisões mostram das chamas a cercar vilas e aldeias do interior e os relatos jornalísticos que dão conta da aflição das populações revelam regiões cada vez mais abandonadas à sua sorte, com a presença do Estado cada vez mais dispersa. E um desnorte dos serviços de coordenação da protecção civil.

 

Há um padrão que revela que o falhanço da protecção civil em Pedrógão Grande não foi justificado por um acidente, em condições excepcionais de temperatura, ventos adversos e trovoada seca. O que já aconteceu em Alijó, Sertã, Proença-a-Nova e no concelho de Vila Velha de Ródão indicia que só por milagre não se repetiram tragédias. 

 

Os portugueses são campeões mundiais de voluntariado e o esforço heróico de milhares de bombeiros e centenas de operacionais de GNR é notável. O problema é que se tudo fosse mais bem organizado, nem seria preciso tanto sacrifício.

 

A protecção civil entregue a "boys" de confiança política revela um amadorismo confrangedor. Percebe-se a ideia de quem tentou aplicar a lei da rolha aos comandantes distritais e marcou "briefings" bidiários em Carnaxide. O caos relatado no país real tem uma narrativa diferente na sede da protecção civil. Pode ser do ar condicionado, que contrasta com o calor das chamas. Mas quando se vê a porta-voz com ar profissional e decidido a falar dos meios envolvidos no combate às chamas, até acreditaríamos nessa narrativa eficiente se na realidade o cenário real não fosse trágico e não houvesse tantas aldeias abandonadas à sua sorte.

 

E no calor da tragédia, os políticos avançam com medidas legislativas avulsas, que não impedem a propagação de fogos, mas acalmam a pressão populista. É urgente uma reforma da floresta e principalmente a norte do Tejo é fundamental reorganizar a propriedade florestal. Mas depois de décadas de incúria o pior que se pode fazer é uma reforma atabalhoada e apressada.

 

Por exemplo, a diabolização do eucalipto não passa de um preconceito. Esta árvore não pode ser a monocultura da floresta, mas pode coexistir, havendo corredores ecológicos com outra flora.

 

E há uma questão fundamental que potencia os megafogos que é o envelhecimento das populações do interior e o êxodo dos mais novos. Os fundos comunitários desperdiçados não têm sido usados para fixar populações no território.

 

Se as pessoas não ficarem nas regiões do interior e se a floresta não for ordenada, estamos condenados a assistir a fogos cada vez maiores.

 

Saldo positivo: Pedro Passos Coelho

 

A tentativa de branqueamento de imagem procurada por Ricardo Espírito Santo Salgado na entrevista ao Dinheiro Vivo acaba por ser um elogio a Pedro Passos Coelho. Diz o banqueiro que "qualquer outro governo teria evitado a resolução do BES". Pura verdade, dificilmente outro primeiro-ministro teria coragem de deixar o grupo, que até então era o mais poderoso do país, à sua sorte, sem a mão protectora do Estado. Com uma factura mais pesada para os contribuintes. Um BPN em dimensão galáctica. 

 

Saldo negativo: Helena Fazenda

 

A magistrada que lidera a segurança do país, uma vez que é secretária-geral do Sistema de Segurança Interna, organismo que em teoria coordena os  serviços de informações (espionagem) e polícias,  foi ao Parlamento confessar que soube do roubo dos paióis de Tancos pelos jornais. Esta declaração revela um estado quase absurdo. Se o assunto não fosse tão grave, uma vez que está em causa a segurança nacional, seria anedótico e digno de um quadro da guerra de Solnado.  

 

Algo completamente diferente

 

A programação cultural este Verão é impressionante. Provavelmente haverá alguma coincidência com as eleições autárquicas de 1 de Outubro com as câmaras municipais a esmeraram a oferta. Os megafestivais têm, naturalmente, mais atenção mediática, mas as grandes pérolas surgem em locais mais periféricos. Por exemplo, na semana passada, o pianista e compositor de jazz norte-americano Herbie Hancock, parceiro de Miles Davis, esteve em Amarante. Para quem gosta de músicas do mundo, há um festival de referência que ainda decorre em Sines. 

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