Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 04 de dezembro de 2017 às 19:04

Estado transtornado

A condição do transtorno dissociativo de identidade (TDI) é popularmente conhecida como dupla personalidade, manifesta-se como que fazendo coexistir duas personalidades na mesma pessoa.

O caso é conhecido do público desde que R.L. Stevenson publicou "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", o médico e o monstro que são uma única pessoa. O verão foi rico em evidências de que o problema pode não ser exclusivo de pessoas, podendo mesmo atingir instituições. O Estado apresenta sintomas do transtorno. Eis um conjunto.

 

Primeiro sintoma: força fraca e fraca força. O Estado defende teoricamente que no plano fiscal tem por objetivo ser macio com os cumpridores e duro com os incumpridores. Nem sempre o é. Pequenos deslizes, como o esquecimento de pagar um dos muitos impostos, são tratados com luvas de boxe, sob a forma de cartas ameaçadoras e de penhoras. Para os que podem pôr o dinheiro em paraísos fiscais, acumulam-se os perdões. Ou seja, há mais fraqueza para os fortes do que macieza para os fracos.

 

Segundo sintoma: o paraíso é o Inferno. Em nome da competitividade por via fiscal, o que para uns é um paraíso para os residentes é um inferno. Numa Europa incapaz de homogeneizar o que importa em vez de se preocupar com as medidas da maçã reineta, cria-se um sistema duplo: mordomo com luva branca para uns, porteiro com porrete para os outros.

 

Terceiro sintoma: maximalismo é minimalismo. O Estado cobra impostos na proporção de quem quer fazer tudo a que tem direito. Quer fazer em vez de regular. Mas nos momentos da verdade muda a bitola: os fogos mataram? As populações não podem esperar pelo Estado. Têm de ser mais resilientes. Fica por isso a dúvida: mais resiliência com menos Estado ou mais resiliência com o mesmo discurso do Estado "paizão"? O Estado paternalista não é o que mais estimula a resiliência. O Governo defende a necessidade de proteger as funções do Estado, mas dispensa-se de cumprir as suas funções essenciais, como a segurança. Mais pode ser menos, como se verificou.

 

Quarto sintoma: o que hoje é verdade, amanhã é mentira. Os que hoje na oposição clamam pela demissão de responsáveis, amanhã, no governo, defendem que o importante é mudar de políticas e não de pessoas. Estes discursos tornaram-se tão previsíveis que mais não fazem que irritar a opinião pública. Quem está no governo só vê males na oposição e quem está na oposição não descortina nada de bom no governo. O resultado é que não há acordos alargados sobre as matérias mais básicas. Mesmo aceitando que tudo é política, um país a arder é um facto e não apenas um facto político. Que não se alcancem acordos sobre os factos apenas diminui as políticas.

 

Quinto sintoma: quanto mais se fala, menos se vê. Diziam os GNR - Grupo Novo Rock. O discurso da reforma é uma bela narrativa. Mas disso não passa. Por isso, o nosso paciente estatal parece não ter remédio. Quer mudar, mas fazendo o mesmo da mesma maneira. Não resulta nem se percebe porque havia de resultar.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar