Hans-Werner Sinn
Hans-Werner Sinn 20 de Outubro de 2016 às 20:00

Estagnação secular ou mal-estar auto-infligido?

Na crise actual, a política monetária esvaziou a destruição criadora que poderia ter formado a base para uma nova retoma do crescimento económico.

Há quase oito anos, o colapso do Lehman Brothers mergulhou a economia mundial numa recessão. O mercado interbancário colapsou e todo o mundo industrializado foi lançado na pior crise desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar dos bancos centrais terem mantido as taxas de juro muito baixas, a crise ainda não foi ultrapassada na totalidade. Pelo contrário, várias economias, como as dos países da Europa do Sul e a francesa, simplesmente não estão a progredir. E o Japão tem estado na corda bamba há um quarto de século.

 

Alguns economistas acreditam que isto são provas de uma "estagnação secular", um fenómeno descrito em 1938 pelo economista norte-americano Alvin Hansen, que se baseou na Lei da Tendência de Queda da Taxa de Lucro de Karl Marx. Devido ao esgotamento dos projectos de investimento rentáveis, de acordo com esta visão, a taxa de juro real continuou a cair. Estabilizar a economia só é possível através de um declínio equivalente na política de taxa de juro.

 

Tendo em vista a grande bolha de crédito que antecedeu a crise no Japão, nos Estados Unidos e no Sul da Europa, e dadas as políticas agressivas seguidas pelos bancos centrais durante os últimos anos, duvido que esta teoria esteja correcta. De facto, acho plausível que um mecanismo muito diferente esteja por detrás da estagnação após 2008, mecanismo ao qual chamo de "mal-estar auto-infligido".

 

Esta hipótese é entendida melhor no contexto da teoria do ciclo económico do economista Joseph Schumpeter. Expectativas erradas por parte dos participantes do mercado regularmente causaram bolhas de crédito e no preço dos activos. Os investidores, que esperavam um aumento dos preços e dos rendimentos, compraram propriedades residenciais e comerciais e correram riscos em novos negócios. Os preços do imobiliário começaram a subir, um boom de construção ocorreu e uma nova fase de expansão rápida começou, em parte, apoiada pela revitalização da economia doméstica, incluindo dos serviços. O crescimento dos rendimentos cada vez mais encoraja os mutuários, o que aquece ainda mais as coisas.

 

E depois as bolhas rebentam. O investimento colapsa e os preços do imobiliário caem; as empresas e os bancos entram em bancarrota e os edifícios residenciais ficam vagos. Os funcionários são despedidos. Quando os preços e os salários tiverem caído, novos investidores chegam com novas ideias de negócio e criam novas empresas. Depois desta "destruição criadora", uma nova fase de rápida expansão desenvolve-se.

 

Contudo, na crise actual, a política monetária esvaziou a destruição criadora que poderia ter formado a base para uma nova retoma do crescimento económico. Os detentores de activos convenceram os bancos centrais de que o ciclo económico de Schumpeter podia ser ultrapassado através de compras de obrigações em larga escala, uma operação financiada através da impressão de dinheiro e pela correspondente descida das taxas de juro.

 

Para ser claro, estas medidas travaram a queda dos preços dos activos a meio do caminho e assim salvaram muita riqueza. Mas também evitaram que uma quantidade suficiente de jovens empreendedores e investidores arriscassem num novo começo. Em vez disso, as empresas estabelecidas continuaram nos seus locais, mantendo-se à tona mas sem a possibilidade de novos investimentos. Em particular, no Japão e na Europa, um elevado número de empresas zombie e de bancos sobreviveram e estão a bloquear potenciais concorrentes capazes de conduzir à próxima retoma do crescimento económico. A ossificação económica resultante parece a estagnação secular que Hansen descreveu. De facto, o mal-estar é auto-infligido.

 

E dado que as baixas taxas de juro reduziram os retornos dos gestores de activos, alguns bancos centrais – em particular o Banco Central Europeu – recorreram a cortes sucessivos nas taxas de juro, num esforço para projectar um substituto para os ganhos nos valores dos activos. No entanto, a economia está presa numa armadilha, obrigando o BCE a encetar medidas de política monetária ainda mais radicais. O programa actual de alívio quantitativo tem o objectivo de duplicar a oferta de dinheiro num curto período de tempo. Mas mais armas estão a ser colocadas em posição, tais como taxas de juro nominais negativas ou o chamado helicóptero de dinheiro.

 

A única saída desta armadilha é uma dose elevada de destruição criadora que, na Europa, tem de ser acompanhada por alívio da dívida e saídas da Zona Euro, com subsequentes desvalorizações cambiais. O choque seria doloroso para os proprietários de riqueza incumbentes mas, depois de um declínio rápido dos preços dos activos em dólares, incluindo de terras e do imobiliário, novos negócios e projectos de investimento rapidamente iriam encontrar espaço para crescer e novos postos de trabalho seriam criados. O retorno natural do investimento seria novamente alto, o que significa que a economia podia expandir novamente com taxas de juro normais. Quanto mais rápido esta purga puder acontecer, mais suave será e mais rápido os europeus e outros povos poderão novamente respirar de alivio.

  

Hans-Werner Sinn, professor de Economia na Universidade de Munique e membro do conselho consultivo do Ministério da Economia alemão, foi presidente do Instituto Ifo.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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5640533 Há 2 semanas

Pena que não especifica quem deve sair do euro. É alemão e está tudo dito.

Tv Tuga.Online Há 2 semanas

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