Neil Dwane
Neil Dwane 03 de novembro de 2017 às 21:40

Estão as FANG a ficar com uma séria dor de dentes?

Nos últimos anos, quatro megacapitalizadas ("mega-cap") empresas tecnológicas tornaram-se tão poderosas, que Wall Street teve de inventar (mais) um novo acrónimo para as descrever. Conheça as ações FANG: Facebook, Amazon, Netflix e Google.

Estas firmas têm contribuído para os turboalimentados retornos bolsistas em anos recentes nos EUA, atingindo mais de 2,7 biliões USD (sensivelmente 2,3 biliões de euros) em capitalização total de mercado. Mas agora, pela primeira vez, políticos e reguladores parecem dispostos a cravar os seus dentes nas FANG e nos seus modelos de negócio.

 

Tal como o crescimento, os dividendos e a geração de "cash" destes nomes "big tech" também têm disparado o seu impacto nas economias e nos consumidores, maravilhados ("wowed") com os seus serviços, a transparência de preço e a conveniência que proporcionam. Nesse sentido, é pouca a surpresa por ter havido, até há pouco, escassa pressão pública para desafiar o domínio destas companhias. Mas estas empresas poderosas estão agora a começar a atrair maior escrutínio por parte dos reguladores – testemunhos disso são a multa da UE à Google em Junho por práticas anticoncorrência ("antitrust") ou as medidas mais recentes da Europa contra a Amazon por esta receber apoio estatal ilegal do Luxemburgo. 

 

Estas pressões regulatórias crescentes indiciam que os governos estão cada vez mais focados em reduzir a predominância no mercado das FANG e de empresas similares. A questão pertinente parece ser agora: vão estes mestres da disrupção "high tech" em breve ver-se eles próprios perturbados ("disrupted")?

 

A publicidade digital – que ajudou as FANG a arrancar os seus dentes de leite – vai manter-se provavelmente sob pressão. Os "bots" e os algoritmos automáticos transformaram completamente o campo da publicidade digital e trouxeram milhares de milhões. Mas se aumentarem as dúvidas sobre a eficácia e as práticas de venda de anúncios, estas podem comprometer seriamente os modelos de negócio dos "social media" e a rentabilidade das FANG.

 

Mesmo que os "social media" se tenham tornado parte das nossas vidas quotidianas, é difícil identificar até que ponto a lealdade à marca é realmente inspiradora. Os inquéritos mostram que o uso dos "social media" cairia se os consumidores tivessem de pagar pelo acesso – ou migrariam para outros serviços "gratuitos". Isto tem implicações para a longevidade empresarial. As FANG poderiam cair em desgraça da mesma forma que empresas semelhantes em dimensão e escala em indústrias mais tradicionais caíram noutros tempos.

 

Enquanto as FANG são extremamente rentáveis atualmente, muito do dinheiro que geram definha nos balanços. O resultado é milhares de milhões de dólares por usar, não devolvidos aos acionistas e incapazes de estimular o crescimento económico – e, em diversos casos, também não tributados. É expectável que os reguladores olhem para formas de obter a sua porção deste dinheiro.

 

Os metadados, os algoritmos de previsão e a inteligência artificial que sustentam as FANG dependem todos de uma coisa: recolher e analisar informação. Mas quando os dados em questão vêm das vidas e hábitos de cidadãos privados, não deveriam igualmente poder influenciar a forma como os dados são usados? Os reguladores na Europa concordam. A nova Regulação Geral de Proteção de Dados da UE vai conferir aos cidadãos maior conhecimento e controlo das suas informações digitais – e aos reguladores uma nova arma potente contra empresas que não atuam no melhor interesse dos consumidores.

 

A pressão política pode ainda conduzir a um novo requisito de "dever de assistência" ("duty of care") para as semelhantes do Facebook, que se tornou efetivamente uma empresa de media. Com os críticos a sugerirem que procura potencializar o impacto do seu sucesso enquanto influenciador global sem a responsabilidade que lhe está inerente, o governo dos EUA pode ser a força motriz para algumas empresas "big tech" se envolverem no tipo de responsabilidades onerosas editoriais e legais que já restringem os seus atuais concorrentes.

 

Até agora, os governos ocidentais têm, na sua maioria, deixado alegremente que Silicon Valley se supervisione a si própria. Mas é claro que este período de graça está a terminar – especialmente na Europa. Esperamos que o campo de ação entre os "disruptores" e os seus incumbentes tradicionais fique mais nivelado.

 

Sem dúvida, parece cada vez mais provável que estas pressões regulatórias comecem a limitar em breve o alcance todo-poderoso das FANG nos EUA e na Europa – mercados ricos, mas pequenos quando comparados com as oportunidades que se afiguram para as Baidu, Alibaba e Tencent na China, basicamente as equivalentes chinesas das FANG. Por agora, estas BAT não estão a ser confrontadas com o mesmo nível crescente de escrutínio regulatório que as suas homólogas FANG. Com supervisão menos onerosa e um cenário de maiores oportunidades nas suas vizinhanças – as populações na Ásia são exponencialmente maiores –, poderíamos defender que, enquanto as FANG estão a desenvolver um caso sério de dor de dentes, as BAT vão realmente descolar.

 

Estratega Global na Allianz Global Investors (AllianzGI)

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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