Luís Sampaio
Luís Sampaio 12 de outubro de 2017 às 15:37

Estarão as organizações de saúde a nadar contra a maré?

Ao contrário da crença popular, os idosos não estão presos no mundo analógico. A tecnologia digital faz parte da vida dos cidadãos de todas as idades, não apenas dos mais novos e dos entusiastas da tecnologia.

As pessoas com 65 ou mais anos de idade que usam a tecnologia digital nas suas vidas diárias - denominados nalguns países de língua inglesa de Silver Surfers - estão a destruir os mitos existentes acerca da utilização de eHealth pelos idosos, como eles a valorizam e o que esperam de um sistema de saúde capacitado pela tecnologia. Esta conclusão foi obtida no estudo "2016 Accenture Consumer Survey on Patient Engament1 ", que rejeita três mitos persistentes sobre a atitude dos cidadãos seniores relativamente às tecnologias digitais na saúde.

Mito #1: Os idosos não usam eHealth
- são apenas engenhocas irrelevantes para eles
 

Ao contrário da crença popular, os idosos não estão presos no mundo analógico. A tecnologia digital faz parte da vida dos cidadãos de todas as idades, não apenas dos mais novos e dos entusiastas da tecnologia. Os comportamentos digitais dos Silver Surfers estão também a ser transferidos para os cuidados de saúde. Os resultados do referido estudo da Accenture indicam que a maioria dos idosos que não usa de forma regular tecnologias digitais na saúde o faz por entender que a sua saúde está sob controle (58%), não porque não as possam pagar (12%), lhes seja muito difícil aprender a usá-las (9%) ou não confiem nas soluções existentes (1%). Os Silver Surfers são consumidores digitais mais sofisticados do que a maioria das pessoas acredita.

 

Mito #2: Existe uma grande diferença entre os jovens e os seniores em termos de consumo de serviços digitais de saúde 

Na realidade, os idosos, tal como os jovens, utilizam a tecnologia para melhorar a sua experiência ao nível dos cuidados de saúde. O referido estudo da Accenture concluiu, por exemplo, que 84% dos idosos e 81% dos não-idosos entendem que "recebem melhores cuidados quando os seus médicos podem aceder e usar os seus registos de saúde eletrónicos". A maioria refere que é mais provável escolherem um fornecedor que disponha de capacidades digitais em saúde, tais como a reemissão de uma receita eletrónica (66%), a comunicação por e-mail (53%) e o agendamento de consultas on-line (49%).

 

Mito #3: Os idosos não têm interesse em novas ferramentas digitais de saúde e estas seriam mesmo um "peso" para eles

A utilização de serviços de saúde digitais pelos Silver Surfers está a acelerar rapidamente, estando estes mais interessados ??em utilizá-los para gerirem a sua saúde do que para controlar os custos com os serviços recebidos. Eles usam não só ativamente as ferramentas digitais de gestão de saúde que se encontram disponíveis, como estão recetivos a novas soluções.

 

A prestação de cuidados de saúde é dirigida em grande parte a idosos, cidadãos envelhecidos que possuem muitas vezes doenças crónicas. Nas sociedades ocidentais tem-se assistido a um crescente envelhecimento da população, que coloca desafios sérios de sustentabilidade financeira e de capacidade de resposta do sistema de saúde. Tem-se, contudo, verificado simultaneamente uma profunda transformação tecnológica na sociedade, que tem vindo a mudar a forma de operar das organizações e o comportamento dos consumidores. A apetência para utilização de serviços digitais de saúde que os pacientes têm vindo a demonstrar, não só por parte dos mais jovens, mas também em grande medida dos idosos, constitui uma oportunidade para realizar uma profunda transformação do Setor da Saúde, que permitirá melhorar a eficiência, eficácia e experiência de utilização dos cuidados de saúde.

 

Os prestadores de serviços de saúde que continuem a não se relacionar com os idosos como consumidores de tecnologias de saúde estão a perder oportunidades de chegar às pessoas e de as envolver nos seus cuidados de saúde. Deverão incorporar-se serviços digitais que os cidadãos já usam e exigem em outras áreas da vida e construir-se pontes digitais entre o paciente e o seu médico, como sejam o registo clínico eletrónico, a teleconferência e as aplicações móveis. A introdução destas novas tecnologias na saúde permitirá desenvolver nas próximas décadas uma medicina preditiva, participativa, preventiva e personalizada, colocando o paciente no centro do modelo de prestação de cuidados de saúde.


[1] Accenture, 2016 Accenture Consumer Survey on Patient Engagement, https://www.accenture.com/us-en/insight-research-shows-patients-united-states-want-heavy. O estudo consistiu na realização de um inquérito a 7.840 pessoas com mais de 18 anos em 7 países (Arábia Saudita, Austrália, Brasil, Estados Unidos da América, Noruega, Reino Unido e Singapura), para avaliar a sua atitude relativamente à saúde, sistema de cuidados de saúde, tecnologias na saúde e as capacidades tecnológicas dos seus prestadores de cuidados de saúde.



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