João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 23 de janeiro de 2018 às 20:49

"Eu Show Trump" e as guerras do negócio  

A imposição de tarifas aduaneiras a máquinas de lavar e painéis solares, incidindo maioritariamente sobre exportações chinesas e sul-coreanas, é a primeira salva na ofensiva proteccionista com que Trump conta galvanizar o eleitorado para as legislativas intercalares de Novembro.

Ainda antes do Discurso do Estado da União, na terça-feira, mexicanos e canadianos vão confrontar-se, por sua vez, com a ameaça de Trump abandonar o Acordo de Comércio Livre da América do Norte.

 

Aumento de 62,5% para 80% da incorporação de componentes norte-americanos para manter a livre comercialização de veículos automóveis e redução das prerrogativas dos tribunais de arbitragem trilaterais contam-se entre as principais exigências de Washington, que Canadá e México tentam mitigar para salvar o acordo.

 

A retórica de Trump sobre a construção do muro anti-ilegais a pagar pelo México  deixa, no entanto, escassa margem de manobra na sexta ronda de negociações em curso para rever o acordo em vigor desde 1994.

 

Para o Presidente norte-americano, o acordo com os vizinhos merece o mesmo repúdio que a Parceria Transpacífico - que excluía a China -, renegada logo no primeiro ano de mandato e que os demais onze signatários, reunindo aliados como o Japão e a Austrália, anunciaram ter renegociado com sucesso para assinatura de nova versão em Março, no Chile.

 

O aumento até 50% nas tarifas de importação de máquinas de lavar nos próximos três anos e de 30% em painéis solares por quatro anos foi justificado pelo prejuízo directo provocado a firmas norte-americanas, confirmado pela United States International Trade Commission.

 

Ironicamente, as empresas que apresentaram queixa em Washington ao departamento federal no caso da produção de painéis solares - sector dependente em cerca de 80% de importações da China - são controladas por capitais chineses (Suniva) e alemães (SolarWorld AG) e as sul-coreanas Samsung Electronics e LG Electronics estão a construir no Tennessee e Carolina do Sul fábricas de máquinas de lavar.

 

A criação de emprego por via destas restrições a importações será praticamente nula, o efeito negativo nos custos do sector de energias alternativas relevante, mas o impacto propagandístico beneficiará Trump.

 

Críticas justificadas ou infundadas, preocupação e consternação públicas no estrangeiro pela imposição destas tarifas como acto unilateral, excessivo ou contraproducente à revelia de princípios do acordos de comércio livre, mesmo por parte de Estados useiros e vezeiros no recurso sistemático e recorrente a práticas proteccionistas e de promoção estatal de exportações subsidiadas, não se traduziram de momento em actos de retaliação.

 

É de esperar, no entanto, que estando na calha medidas proteccionistas punitivas em Washington, numa escala superior à encetada pelos administrações de George W. Bush e Barack Obama, a tensão aumente com repercussões diplomáticas e militares em catadupa, sobretudo na península coreana e na controvérsia sobre o acordo nuclear iraniano.

 

Vendas subsidiadas de aço e alumínio e, sobretudo, violações de direito de propriedade intelectual por parte de firmas privadas e estatais chinesas são o alvo imediato.

 

O confronto com Pequim, rival estratégico, apresenta o risco de alastrar e alguns indicadores merecem ponderação: os investimentos de firmas chinesas nos Estados Unidos caíram 35% entre 2016 e 2017 para 29 mil milhões de dólares por via do endividamento excessivo que o governo comunista tenta reduzir e de restrições de Washington a aquisições de empresas estratégicas.

 

Pequim continua, por outro lado, a ser o maior credor de Washington detendo, em Novembro de 2017, 1,18 triliões de dólares em obrigações do Tesouro, mas tende a reduzir estes investimentos ao mesmo tempo que diminui a exposição ao dólar e diversifica as reservas em divisas que somavam 20,3 biliões de dólares em Dezembro.

 

O confronto com Pequim, assumidamente a principal potência rival dos Estados Unidos, será difícil de gerir, vai a par das sanções a anunciar contra oligarcas russos do círculo de Vladimir Putin, e é essencial ao "Eu Show Trump".

 

Jornalista

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