Leonel Moura
Leonel Moura 02 de fevereiro de 2017 às 21:05

Europa China

A Europa é o lugar mais livre do planeta. Os direitos de reunião, expressão e circulação são triviais. O direito à diferença comportamental, sexual, cultural, de crença, de origem, económica, política, também. 

A Europa é a segunda maior economia do mundo. Em certas estatísticas surge mesmo como primeira já que anda a par da americana. De qualquer modo é o maior mercado. Com 500 milhões de habitantes, os Estados Unidos têm 320, fica atrás da China e da Índia em população, mas com um poder de compra e um desenvolvimento (ainda) muito superiores.

 

A Europa é o maior centro cultural do mundo. Pela História e generalizado apreço pelas artes, a criatividade e a inovação são correntes.

 

A Europa tem o mais avançado sistema de proteção social do planeta. Na doença, no desemprego, na reforma, os europeus não são abandonados à sua sorte. O ensino e a saúde são gratuitos ou, nalguns casos, tendencialmente gratuitos.

 

A Europa tem uma justiça independente. A pena de morte não existe.

 

A democracia, ela mesma uma invenção europeia, funciona e é constantemente escrutinada e melhorada pelos cidadãos. Embora tanta vez se critique a passividade da chamada sociedade civil, a Europa é certamente a sociedade em que ela está mais organizada e ativa com inúmeros movimentos, associações, sindicatos e partidos.

 

O debate político é generalizadamente culto, civilizado e pacífico.

 

Num momento em que o mundo derrapa para o desvario é bom não esquecer estas e outras realidades da Europa, aqui naturalmente referindo a União Europeia. Existem certamente problemas, coisas que não funcionam bem, incongruências e injustiças. Mas temos a sorte de viver num lugar decente, livre e progressista no sentido evolutivo.

 

A Europa tem pois uma enorme vantagem competitiva face às outras sociedades desenvolvidas. A derrapagem dos Estados Unidos para uma deriva isolacionista e autoritária terá certamente consequência globais, afetando a economia europeia, mas por outro lado abre uma enorme oportunidade de desenvolvimento. Dou um exemplo. A ciência vai regredir brutalmente na América. Pela visão cavernícola dos atuais responsáveis estatais, pela dificuldade, senão impossibilidade, em recrutar génios no mundo, mas igualmente pela conceção de uma América fechada sobre si mesma a ponto de proibir a circulação do conhecimento. Ora a ciência de hoje não se faz fechada no laboratório. Precisa de permanente circulação de ideias, saberes e experiências. Precisa de uma constante interação multidisciplinar e multicultural.

 

A Europa tem, portanto, aqui uma enorme oportunidade. Apostando forte numa ciência aberta, dinâmica, criativa e global. De referir que o mesmo se aplica às artes e à cultura em geral.

 

O outro campo é naturalmente o económico. O fechamento dos Estados Unidos, a anulação de tratados comerciais, permite à Europa diversificar os seus parceiros. Nomeadamente com a China e outros países do Oriente. A própria saída da Grã-Bretanha é favorável a este movimento. Na verdade, se nunca esteve seriamente dentro, é melhor estar fora.

 

A Europa deve virar-se para o Oriente e em força. A China prepara-se para aproveitar a estupidez americana e conquistar a liderança no mundo. Mas a China não é livre. O que se por um lado facilita o poder de decisão das elites, quando a decisão é boa, por outro, essa falta de liberdade é um obstáculo à inovação. Vivemos num mundo, cultural e económico, que exige mais e mais inovação. Em suma, a China precisa da Europa; a Europa precisa da China.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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