Michael Spence
Michael Spence 19 de março de 2017 às 14:00

Europa ou anti-Europa?

Se não houver uma mudança nas políticas e na trajectória económica, os disjuntores políticos vão disparar em algum ponto, tal como aconteceu nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Recentemente, um amigo meu, que é uma pessoa informada, perguntou-me, em Milão: "Se um investidor estrangeiro, digamos, dos Estados Unidos, quisesse investir uma soma substancial na economia italiana, o que é que aconselharias?" Eu respondi que, embora haja muitas oportunidades de investimento em empresas e sectores, o ambiente global de investimento é complicado. Recomendaria que investisse com o aconselhamento de um parceiro local, que soubesse explorar o sistema e detectar riscos parcialmente ocultos.

 

Naturalmente, o mesmo conselho aplica-se a muitos outros países, como a China, Índia e Brasil. Mas a Zona Euro está a transformar-se cada vez mais num bloco económico a duas velocidades, e as potenciais ramificações políticas dessa tendência estão a aumentar as preocupações dos investidores.

 

Numa reunião recente de consultores de investimento de alto nível, um dos organizadores perguntou a todos se achavam que o euro continuaria a existir daqui a cinco anos. Só uma pessoa em 200 respondeu que não - uma surpreendente avaliação colectiva dos riscos, dada a actual situação económica da Europa.

 

Neste momento, o PIB real (ajustado pela inflação) de Itália está próximo do seu nível de 2001. Espanha apresenta um desempenho melhor, mas o seu PIB real ainda está próximo do nível de 2008, pouco antes da crise financeira. E os países do sul da Europa, incluindo França, tiveram recuperações extremamente fracas e um desemprego teimosamente elevado - mais de 10%, e muito maior no caso de pessoas com menos de 30 anos.

 

Ao mesmo tempo, os níveis de dívida soberana aproximaram-se ou ultrapassaram os 100% do PIB (Itália está agora em 135%), enquanto a inflação e o crescimento real - e, portanto, o crescimento nominal - permanecem baixos. Este persistente excesso de dívida está a limitar a capacidade de usar medidas orçamentais para ajudar a restaurar o crescimento robusto.

 

A competitividade dos sectores transaccionáveis das economias da Zona Euro varia muito, devido às divergências que surgiram após a introdução da moeda única. Ainda que o recente enfraquecimento do euro vá reduzir o impacto de algumas dessas divergências, não vai eliminá-las por completo. A Alemanha continuará a ter grandes excedentes; e países onde o rácio entre os custos unitários da mão-de-obra e a produtividade é alto continuarão a gerar um crescimento insuficiente do comércio.

 

Desde a crise financeira de 2008 que se diz que a recuperação longa e difícil para as economias da Zona Euro acabará por levar a um forte crescimento. Mas essa narrativa está a perder credibilidade. Em vez de recuperar lentamente, a Europa parece estar presa num equilíbrio semipermanente de baixo crescimento.

 

As políticas sociais dos países da Zona Euro atenuaram o impacto distributivo da polarização do emprego e do rendimento alimentado pela globalização, automação e tecnologias digitais. Mas esses países (e, para ser justo, muitos outros) ainda têm de enfrentar três alterações consequentes que afectam a economia global desde o ano 2000.

 

Primeiro, o euro foi introduzido sem uma unificação orçamental e regulamentar complementar. Em segundo lugar, a China aderiu à Organização Mundial do Comércio e ficou mais integrada nos mercados globais. Em terceiro lugar, as tecnologias digitais começaram a ter um impacto cada vez maior nas estruturas económicas, nos postos de trabalho e nas cadeias de abastecimento globais, o que alterou significativamente os padrões de emprego globais e acelerou o ritmo da perda de empregos rotineiros.

 

Pouco tempo depois, entre 2003 e 2006, a Alemanha implementou reformas de longo alcance para melhorar a flexibilidade estrutural e a competitividade. E, em 2005, o Acordo Multifibras caducou. Sem o AMF, que havia sustentado as quotas para as exportações de têxteis e vestuário desde 1974, a indústria têxtil global tornou-se fortemente concentrada na China e, surpreendentemente, no Bangladesh. Só em 2005, a China duplicou as suas exportações de têxteis e vestuário para o Ocidente. Esta evolução teve um efeito particularmente adverso nas regiões mais pobres da Europa e nos países em desenvolvimento menos competitivos em todo o mundo.

 

Estas mudanças criaram um desequilíbrio nos padrões de crescimento num vasto conjunto de países. Como muitos países tomaram medidas para resolver problemas ao nível da procura agregada, a dívida soberana aumentou, e as bolhas imobiliárias alimentadas pela dívida expandiram-se. Estes padrões de crescimento eram insustentáveis, e quando finalmente colapsaram, as fraquezas estruturais subjacentes vieram ao de cima.

 

A resistência ao sistema actual está a crescer. O referendo sobre o Brexit no Reino Unido e a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA reflectiram o descontentamento público com os aspectos distributivos dos recentes padrões de crescimento. E o aumento do apoio a partidos populistas, nacionalistas e anti-euro poderá representar uma séria ameaça para a Europa, principalmente em grandes países da Zona Euro, como França e Itália.

 

Quer estes partidos tenham ou não sucesso nas urnas, no futuro imediato, o seu surgimento deve lançar dúvidas sobre opiniões excessivamente sanguíneas em relação à longevidade do euro. As forças políticas anti-euro estão claramente a fazer incursões eleitorais e continuarão a ganhar terreno enquanto o crescimento continuar anémico e o desemprego elevado. Entretanto, a UE não deverá levar a cabo reformas políticas ou institucionais substanciais a curto prazo, por receio de que isso possa afectar negativamente o resultado das eleições deste ano nos Países Baixos, França, Alemanha e possivelmente em Itália.

 

Naturalmente, uma visão alternativa sustenta que o Brexit, a eleição de Trump e a ascensão de partidos populistas e nacionalistas servirão de alerta e estimularão a Europa em direcção a políticas mais amplas de integração e de crescimento. Isto exigiria que os decisores políticos da UE abandonassem a ideia de que cada país é o único responsável por manter a sua casa em ordem, mantendo simultaneamente os compromissos orçamentais, financeiros e regulamentares da UE.

 

Manter as regras da UE deixou de ser possível, porque o sistema actual impõe demasiadas restrições e contém muito poucos mecanismos de ajustamento eficazes. Reformas orçamentais, estruturais e políticas são extremamente necessárias; mas não serão suficientes para resolver o problema de crescimento da Europa. A amarga ironia em tudo isto é que os países da Zona Euro têm um enorme potencial de crescimento num vasto conjunto de sectores. Eles precisam simplesmente de menos restrições do sistema.

 

Será que o futuro da Europa se assemelha a um desastre de comboios em câmara lenta, ou será que uma nova geração de líderes mais jovens vai caminhar em direcção a uma integração mais profunda e a um crescimento inclusivo? É difícil dizer, e eu, por exemplo, não descartaria nenhuma das duas possibilidades.

 

Uma coisa parece clara: o status quo é instável e não pode ser sustentado indefinidamente. Se não houver uma mudança nas políticas e na trajectória económica, os disjuntores políticos vão disparar em algum ponto, tal como aconteceu nos Estados Unidos e no Reino Unido.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
mms Há 3 dias

A arquitectura da Europa é insustentável pois baseia-se num esquema em pirâmide levada ao extremo em que os mais fortes se alimentam dos mais fracos, tudo isto servido de bandeja pela classe politica dos países mais fracos.
É uma questão de tempo, as assimetrias crescem e os insultos acompanham.